Pobre país rico

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos - mas só alguns. Eis Moçambique, cuja província mais a nordeste, na fronteira com a Tanzânia, enfrenta uma catástrofe humanitária sem precedentes.

Mal refeitos da tragédia provocada pelas violentas tempestades de 2019, cujas cheias devastaram um quarto do solo arável do país, a violência armada em Cabo Delgado, onde até há dias se desenvolvia o maior investimento multinacional privado em África, para exploração de gás natural, já semeou milhares de mortos e quase um milhão de deslocados, em pânico e em fuga, à procura de abrigo, alimentação e água.

As enormes reservas de hidrocarbonetos (as terceiras maiores da África) e de carvão (descobertas recentemente no norte de Moçambique) aumentaram as expectativas na que é uma das nações mais pobres do continente. Mas num país que nunca viveu a alternância de poder são poucos os que beneficiam da situação. A dívida pública doméstica tem crescido 29% ao ano na última década - quatro vezes mais do que a economia moçambicana. E o sistema financeiro, voltado para os grandes projetos de que apenas tem beneficiado a minoria aliada ao regime intocado desde 1975, praticamente ignora o desenvolvimento de pequenas e médias empresas.

A miséria e a injustiça são o maior viveiro de violência. A pobreza generalizada e o sentimento de discriminação entre a população de Cabo Delgado, de maioria muçulmana, têm aumentado os fatores de revolta, seja por conflitos étnicos seja por ausência do Estado, e são o caldo perfeito que facilita o recrutamento dos mais jovens para a radicalização.

Os ataques sangrentos, cuja autoria tem sido reivindicada por bandos afetos ao chamado Estado Islâmico, já levam mais de três anos e atingiram um pico de gravidade nas últimas semanas, fazendo despertar alarmes que vão de
Washington ao Vaticano. Mas em Maputo, a mais de 2 mil quilómetros a sul do conflito, o governo de Filipe Nyusi, mais preocupado em defender o investimento estrangeiro do que as populações do nordeste moçambicano, continua a recusar o apoio militar internacional dos seus mais próximos aliados, preferindo entregar a contenção da insurgência terrorista a empresas privadas de segurança onde avultam mercenários de várias origens.

Em Cabo Delgado, a dor e a desgraça falam português. Mas foi só em 9 de dezembro que os altos dignitários da comunidade lusófona (CPLP) se pronunciaram pública e formalmente sobre os ataques armados que agora precipitaram a maior tragédia naquela província, fazendo soar "um veemente apelo" à comunidade internacional para prestar assistência humanitária a Moçambique.

A ajuda tarda e, no plano militar, o apoio previsto não terá efeitos a curto prazo, uma vez que, oficialmente, o governo moçambicano só aceita apoios para formação das suas forças armadas. É neste quadro, aliás, que nos próximos dias partirão para Moçambique os primeiros elementos de um contingente de 60 militares portugueses - uma força especial de comandos e fuzileiros que, no entanto, se destinam apenas à formação e treino de tropas locais. Até lá, o flagelo continua.

Jornalista

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