Pelos Santos Populares

Antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha. E talvez saber que, por causa dela, ou de uns peixes como ela, estivemos à beira de uma guerra mundial, ou quase. Não foi assim há tanto tempo como isso e envolveu dois países que agora se enfrentam surdamente, Suécia vs. Rússia. Passou-se isto em 1982, um ano depois do naufrágio de um submarino russo, então soviético, ao largo de Estocolmo. Após o naufrágio, a Marinha sueca, claro está, entrou de imediato em prevenção intensa e a imprensa do país noticiou amplamente os perigos de uma invasão soviética, aguardada a todo o instante. Alarmismo, dirão uns, sensatez, obtemperarão outros, mas o certo é que os sonares suecos começaram a detectar nos mares um sinal sonoro estranho e inexplicável, que emitia na gama de frequência do ruído das hélices dos motores. Sem outro inimigo à vista, a coisa só poderia ser vinda dos soviéticos, operação em larga escala. O Estado-Maior da Suécia, convencidíssimo de que havia marosca grossa no fundo dos seus oceanos, mobilizou submarinos para o sector de onde vinham os sons, tentou estabelecer contacto com a fonte sonora, andou às voltas e voltas para detectar a origem dos ruídos. Foram afanosas as buscas, mas não deram em nada, nada de nada.

E se os almirantes suecos já estavam ao rubro com tanto barulho e mistério, mais alarmados ficaram ao não conseguirem saber de onde vinha aquele chinfrim todo. Puseram-se a magicar, como é óbvio, que os russos tinham desenvolvido uma nova e sofisticadíssima técnica de camuflagem dos seus navios - alerta para o Ocidente! - uma arma secreta e nunca vista. Durante um mês, mês e meio, aviões e navios de guerra patrulharam a zona à cata de indícios, esquadrinharam cada palmo de mar, mas o mais que descobriram foram umas bolhinhas de ar à tona d'água na zona de onde vinham os ruídos. Seria coisa de extraterrestres, uma civilização perdida no fundo dos mares? A nova Atlântida, de foice e martelo? De caminho, o expectável incidente diplomático, com o embaixador sueco em Moscovo a queixar-se asperrimamente ao Kremlin e este, como sempre, a negar tudo, facto que aumentou ainda mais as suspeitas e os anseios deste lado de cá da Cortina de Ferro.

Durante meses, durante anos, os militares e os diplomatas suecos, incapazes de perceberem a origem da coisa, atribuíram os estranhos ruídos a manobras submarinas inimigas, que consideraram uma afronta reiterada, ademais camuflada, à sua soberania báltica. Caiu o Muro, caiu a União Soviética, houve promessas de paz, abriram o McDonald"s e a IKEA em Moscovo, mas os barulhos prosseguiram, irritantes e constantes. Em 1994, já com os nervos em franja, o governo de Carl Bildt escreveu carta dura a Boris Ieltsin, acusando-o de não controlar as manobras subaquáticas da sua marinha, insinuando até que o líder russo sabia de tudo e estava a fazer-se de Lucas. O Ieltsin, qual urso picado, rosnou inocência, negou tudo ferozmente, jurou uma e outra vez que não sabia de nada, que nada de estranho se passava com as suas frotas marinhas. Em 1996, a armada sueca, extenuada e impotente, decidiu pedir ajuda aos civis e mandou vir uma equipa de bioacústicos dirigida pelo professor Magnus Wahlberg para escutar aqueles sons misteriosos, classificados como assunto de Estado com notação top secret.

Ao fim de anos e anos de buscas bélicas, de milhões e triliões investidos em navios de alto-mar, não foi preciso muito para que os cientistas dessem com a origem do ruído e identificassem o culpado: tratava-se de um banco de arenques à conversa. Uma conversa que, por sinal, tinha o seu quê de gástrico, baixo-ventral, a saber: depois de um dia a labutarem no mar, os arenques, como os humanos, gostam de se reunir para uns momentos de convívio e cavaco ameno; simplesmente, comunicam entre si através de... flatos. Di-lo a ciência que a bexiga-natatória dos arenques, o órgão que garante o seu equilíbrio de flutuação, tem uma canalização complicada, muito emaranhada, que produz gases depois expelidos pelas vias naturais.

O que intrigou os suecos, o que pôs bases navais e chancelarias em polvorosa, mais não era, assim, do que um concerto de flatos, uma sinfonia gasosa ocorrida todos os dias, aos finais da tarde. Os sons transmitiam informações complexas, estruturadas em repetições ritmadas de impulsos sonoros, a cada 32 a 133 milésimos de segundo, numa gama de frequências que escapa à audição dos seus predadores, mas que, desgraçadamente, foi captada pela Marinha do Reino da Suécia, pondo o mundo em polvorosa e à beira de um ataque de nervos.

Que uma guerra mundial pudesse ter sido desencadeada por um concerto de flatos de um banco de arenques ao largo de Estocolmo é algo que nos diz muito do pouco que sabemos sobre o mundo da natureza - e dos riscos que essa ignorância implica, até para a nossa sobrevivência como espécie, ponto para o qual a covid e as alterações climáticas nos alertam a todo o instante, sem que nada façamos para arrepiar caminho.

De facto, antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha. E, para isso, nada melhor do que A Eloquência da Sardinha - Histórias extraordinárias do mundo submarino, de Bill François, um livro estupendo que a Quetzal editou o ano passado, mas que não teve, creio, a atenção que indiscutivelmente merece. Foi lá que conheci a história dos arenques flatulentos e foi lá que fiquei a saber, entre muitas e muitas coisas, que as correntes marítimas transportam milhões de moléculas odoríferas, pelo que os oceanos, ao contrário do que julgamos, estão cheios de cheiros e fragrâncias. Nas águas da Gronelândia, o salmão do Atlântico é capaz de identificar, a milhares de quilómetros de distância, o odor do rio da Bretanha onde nasceu, e perseguir os seus eflúvios a nado, até encontrar o estuário. Bastam umas gotas desse aroma, dispersas num oceano inteiro (!), para que o salmão reconheça o cheiro do local onde nasceu e lá regresse. Por isso, quando comer um salmão, um salmão do Atlântico, não aqueles de aviário, lembre-se que é criatura que tem uma memória e uma acuidade olfactivas que são, provavelmente, melhores do que as suas.

Em 1956, o comandante Cousteau realizou um documentário pioneiro e célebre, O Mundo do Silêncio (quando o viu, o génio repentista de Alexandre O"Neill logo esgalhou Sigamos o Cherne). O título do filme e do livro que se lhe seguiu é, porém, enganador, pois os mares estão repletos de sons, uns naturais, outros humanos. Como escreve Bill François no seu livro da sardinha, "a passagem de um porta-contentores produz tanto ruído debaixo de água como um avião a descolar, e o tráfego marítimo emite um fundo sonoro tão intenso quanto uma rua movimentada". Pense-se no que isso faz às baleias, por exemplo, que comunicam entre si numa faixa estreita dos oceanos, a termoclina (ou metalímnio), no interface entre a zona de águas quentes superficiais e a zona de águas frias mais profundas. Para se ter uma ideia, os rorquais-comuns do Mediterrâneo são capazes de comunicar entre si, fazendo serenatas de amor ou marcando encontros, a mais de dois mil quilómetros de distância, ou seja, a mesma lonjura entre Paris e Lisboa.

Que uma guerra mundial pudesse ter sido desencadeada por um concerto de flatos de um banco de arenques ao largo de Estocolmo é algo que nos diz muito do pouco que sabemos sobre o mundo da natureza - e dos riscos que essa ignorância implica até para a nossa sobrevivência como espécie, ponto para o qual a covid e as alterações climáticas nos alertam a todo o instante, sem que nada façamos para arrepiar caminho. De facto, antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha.

Aliás, em 1989 surgiu no Pacífico uma notícia extraordinária, de partir o coração: os hidrofones captaram o chamamento lancinante da baleia mais solitária do mundo, que emitia os sons característicos de um rorqual, mas num canto demasiado agudo para ser escutado pelos seus congéneres. Ninguém ainda hoje sabe de onde vem esta voz estranhíssima, havendo quem diga que aquela baleia é um híbrido de baleia-azul e rorqual-comum, enquanto outros julgam que ela tem uma deformação que a torna incapaz de falar com os da sua espécie, e outros ainda dizem que a pobrezinha nasceu surda. Ninguém a conseguiu avistar, mas é possível seguir-lhe o rasto pelo som que produz todos os anos durante a sua migração solitária. É caso único no fundo dos mares, onde a algazarra dos peixes e dos crustáceos faz lembrar as cenas que vemos nos filmes da Disney: as corvinas grasnam, os meros mugem, os triglos rosnam, as lagostas tocam violinos com as suas antenas, os bacalhaus são dos mais loquazes de todos. As corvinas do golfo do México, quando se reúnem para desovar, produzem gritos que ultrapassam os 200 decibéis e ensurdecem temporariamente os cetáceos das redondezas.

Falemos então das sardinhas, que por estes dias deglutimos às dúzias, às toneladas, nas festas do santo a quem Pessoa chamou, e bem, "eterno rapaz". As sardinhas e peixes congéneres têm um ar metálico, parecem revestidas a folha-de-Flandres, devendo-se esse aspecto prateado, como o nome indica, ao stratum argenteum, uma camada de pele brilhante situada por baixo das escamas transparentes, a qual, como tudo o que acontece no mundo da natureza, tem uma função e uma missão precisas: é um espelho que reflecte a cor envolvente, fazendo com que as sardinhas se fundam e dissolvam na paisagem azul do mar, tornando-as mais difíceis de detectar pelos seus predadores. Mais do que isso: por razões ópticas que sou incapaz de explicar, mas que têm que ver com campos eléctricos, vibrações de electrões, polarizações e outras coisas mais, a pele das sardinhas é um espelho perfeito, com reflexos homogéneos em todos os ângulos, um prodígio tecnológico que nos deixa boquiabertos de espanto, como espantados ficamos ao saber que cada escama da sardinha é formada por anéis concêntricos, tal qual os anéis das árvores, com cada anel a marcar um episódio da sua vida, uma autobiografia cutânea em que os círculos mais estreitos indicam um Inverno rigoroso e os mais largos um crescimento rápido, típico de Verões generosos. Na pele, atrás da cabeça e ao longo do flanco é frequente encontrarmos uma fila de manchas pretas ligeira, que são como as tatuagens dos bandos de motards, ou seja, um sinal ou uma marca identificadora que permite às sardinhas de um banco reconhecerem-se entre si e organizarem-se enquanto nadam, de modo a não se atropelarem umas às outras. A densidade das sardinhas de um banco é aproximadamente de uma quinzena de indivíduos por metro cúbico, quatro vezes mais do que os humanos quando andam enlatados no metro às horas de ponta. Pois bem, graças àqueles sinais identificadores, as sardinhas nadam em sincronização perfeita, nenhuma se move em sentido contrário ao do seu banco, nem tropeça ou esbarra com as outras. Compare-se aos humanos nas ruas apinhadas das grandes cidades, nas estações de comboio ou metropolitano, todos aos choques e aos impropérios. As sardinhas movimentam-se aos milhões, todas juntas, como se fossem a população de um país inteiro, e não têm líderes nem parlamentos: as decisões fluem naturalmente, espontaneamente, e basta um simples gesto, um olhar de sardinha para sardinha, para que o grupo se auto-organize e se alinhe em sincronia perfeita, ora virando à esquerda, ora à direita, consoante as ideologias, ora formando uma linha, ora gerando um quincôncio. Se acaso surge um predador, o banco dribla, divide-se em dois para desorientar o atacante e, na hora das refeições, há uma cooperação invisível, poderosíssima, que faz com que todos comam por igual e ninguém fique esfaimado. Como observa Bill François, é uma forma fantástica de democracia e autogoverno, fruto de uma inteligência colectiva que resulta do somatório das pequenas ou micro-acções conjugadas de cada sardinha. Por tudo isto, e por muito mais, antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha.

Ninguém aspira ao socialismo piscícola dos cardumes de sardinhas, onde todos comem por igual, mas sacrificam a sua individualidade e diversidade em nome do colectivo. Os humanos não são sardinhas em bando, ou banco, escravizadas pela dura lei dos mares, em que ao mínimo deslize é-se devorado por um predador feroz. Ainda assim, por vezes interrogamo-nos se seremos mesmo mais racionais do que os outros bichos, se aquilo que temos feito uns aos outros, ao planeta e às demais espécies, revelará a tal "inteligência superior" de que tanto nos jactamos. Seremos realmente mais racionais e mais inteligentes do que as sardinhas, que conseguem viver em harmonia umas com as outras, sem guerras, nem atropelos? Ou que os camarões, que têm o seu esqueleto no exterior do corpo? Ou, sobretudo, seremos mais inteligentes do que os inteligentíssimos polvos, que falam uns com os outros, que partilham entre si conhecimentos e truques de sobrevivência, que por vezes vivem em autênticas cidades submarinas?

Compare-se isso com a estupidez, a estupidez tremenda, que é esta guerra da Ucrânia. Vladimir Putin é líder de um país gigantesco, já de si difícil de governar e pacificar, com um povo admirável e recursos naturais colossais; poderia estar nas boas graças do Ocidente, fazer a ponte entre a Europa, os EUA e a China, lucrando a Oeste e a Leste, poderia fazer crescer a economia e cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, manter boas relações com a irmã Ucrânia, com benefícios mútuos, poderia ficar averbado para a História como um novo czar, da estatura de um Pedro, o Grande. Poderia, enfim, fazer tudo isso e muito mais, mas não, escolheu o pior e o mais estúpido caminho, aquele que trará mais miséria e sofrimento ao seu povo, que lhe trará a ele, Vladimir Vladimirovich, agruras até ao final da vida, que o manterá, a ele e à Rússia, em estado de permanente insegurança e sobressalto por muitos e muitos anos.

O que tem sido a sofrida história da Ucrânia é, aliás, um indício exemplar da estupidez e da irracionalidade humanas. Em 2014, no decurso da invasão da Crimeia, o jornalista Tim Judah percorreu a Ucrânia cima abaixo como correspondente da Economist e da New York Review of Books (para esta última, de resto, Judah tem feito agora notáveis reportagens em terras ucranianas). O resultado foi um livrinho devastador (até pelas histórias de vida que nele se contam e pela descrição das atrocidades russas na Crimeia e no Donbass), intitulado In Wartime - Stories from Ukraine (Penguin, 2015). A dado passo, Judah foi à Bessarábia e, para nos dar uma pálida noção do que tem sido a vida naquelas paragens, e em todo o resto da Ucrânia, limita-se a enumerar quem as dominou nos últimos 200 anos: de 1812 a 1878, foram da Rússia; de 1856 a 1878, da Moldova; de 1878 a 1918, novamente da Rússia; de 1918 a 1940, passaram para a Roménia; de 1940 a 1941, foram dominadas pela União Soviética; de 1941 a 1944, regressaram à Roménia; de 1944 a 1991, foram para a URSS; de 1991 em diante, passaram a integrar a Ucrânia. E isto, note-se, são apenas as transferências mais importantes porque, se descermos ao pormenor, a Bessarábia mudou muito mais vezes de mãos e de senhores. Claro está que todas essas mudanças implicaram guerras, milhões de mortes, atrocidades várias, coisas horríveis.

Quando olhamos para tudo isto, para aqueles 200 anos de balbúrdia geopolítica, para aquele cortejo de mortos, de órfãos, de viúvas, de destruição permanente, sentimos algum regozijo - egoísta é certo, mas inevitável - por vivermos aqui nos fundos da Europa, nesta nossa periferia soalheira e pacata. É certo que, em alturas tranquilas, maldizemos Portugal e o seu "atraso", a condição geográfica e histórica que nos afastou do coração das rotas do comércio e do progresso, da ilustração e das artes, dos grandes movimentos culturais e intelectuais europeus. Mas, nos tempos que estamos vivendo, acabamos por descobrir que afinal, afinal, talvez não seja assim tão mau sermos periféricos e distantes, estarmos longe de uma região do mundo que é «central», sem dúvida, mas que pouco tem podido aproveitar dessa centralidade. Na verdade, no caso da Ucrânia e países limítrofes (Polónia, Estados bálticos, etc.), a centralidade geográfica tem sido uma maldade histórica, tantas foram as vezes que aquelas terras mudaram de mãos, tantas foram as guerras e as chacinas aí travadas. A nós, portugueses, com fronteiras estabilizadas há muitos séculos, talvez seja difícil alcançar a monumental estupidez que, ao longo da História, aqueles povos têm sido capazes de fazer uns aos outros, algo que desafia a compreensão humana e que nos faz duvidar da racionalidade e da superioridade da inteligência da nossa espécie.

É difícil, de facto, falar da superior inteligência de um animal capaz de infligir tanto sofrimento às outras espécies e à sua própria espécie. Desde logo, por ignorância: no mar existem 2,2 milhões de espécies, das quais só conhecemos menos de 10%; quer dizer, mesmo actualmente, com tanta tecnologia e com tanta ciência, ignoramos ainda cerca de 91% das espécies marinhas. As que conhecemos, muito poucas, têm-nos dado motivos de sobra de maravilhamento e fascínio. Pense-se no peixe-palhaço, por exemplo. Os peixes-palhaços vivem em família e quando, por uma razão qualquer, a mãe abandona o lar ou é morta, o seu companheiro transforma-se em fêmea e o filho mais velho assume o lugar do pai. Ou seja, uma novela freudiana e mexicana nos mares de coral: orfandade materna, transformismo do progenitor, família disfuncional, usurpação da identidade paterna, provável incesto, com laivos homoeróticos, entre pai que passou a mãe e filho que passou a pai. As consultas de psicanálise dos peixes-palhaços não devem ser, digamos, coisa fácil.

Além do encantamento contante, as espécies marinhas têm-nos dado muito, muitíssimo, e poderiam dar muito mais se as conhecêssemos e protegêssemos melhor. É o caso das arenícolas, aquelas minhocas minúsculas que enchem as praias com rolinhos de areia. As arenícolas têm uma hemoglobina que transporta o oxigénio 40 vezes melhor do que a hemoglobina humana, além de ser compatível com todos os grupos sanguíneos. Graças a elas, às arenícolas, têm sido criados produtos que conservam os nossos órgãos para transplantes cerca de dez vezes mais tempo do que as outras soluções até há pouco conhecidas. Eis um exemplo, entre tantos outros, daquilo que poderemos lucrar se conhecermos melhor a natureza e o ambiente marinho. Outro: os corais têm uma poderosa imunidade adquirida face às doenças, são capazes de se protegerem melhor das infecções com as quais já tenham entrado em contacto, e resistem-lhes melhor. Não temos sequer ideia do que poderemos aprender com eles, do modo como os corais são capazes de nos ajudar a evitar doenças e a repelir infecções e maleitas, prevenindo pandemias próximas. Infelizmente, estamos a destruir os corais a um ritmo avassalador: as áreas mortas do oceano, definitivamente perdidas, ocupam já uma superfície de mais de 245 mil km2, equivalente à do Reino Unido. As estatísticas, aterradoras, constam de um relatório elaborado em 2021 pela Fundação Oceano Azul: apenas 13% do oceano permanece intacto; 90% das zonas de pesca mundiais estão totalmente exploradas (61%) ou sobre-exploradas (29%); cerca de 33% das capturas de peixe em todo o mundo são ilegais (leu bem: um terço do pescado global é ilegal); cerca de 10%, pelo menos, das capturas são desperdiçadas, sendo o arrasto o tipo de pesca com mais desperdício; interditar a pesca em alto-mar geraria grandes aumentos de lucro nas pescas (+ 100%), no rendimento nas zonas de pescas (+ 30%) e na conservação de stocks de peixes (+ 150%). Actualmente, já destruímos entre 30% a 35% dos habitats marinhos mais protegidos e 60% dos principais ecossistemas marinhos do mundo estão a ser usados de forma insustentável. No oceano inteiro, só cerca de 13% pode ser considerado "selvagem" − tudo o resto já foi tragado, devorado, sujeito a intensa pressão e exploração humanas.

Há dias, foi revelada mais uma estatística vergonhosa e vil: Portugal é o segundo maior exportador mundial de carne de tubarão. Deveríamos dar o exemplo, tanto mais que, em breve, acolheremos em Lisboa a Conferência da ONU sobre os Oceanos, uma oportunidade única, irrepetível, para salvar o futuro do planeta. Entretanto, festejos populares, sardinhas e pão, manda a tradição. Mas, antes de comer uma sardinha, convém saber ao menos o que é uma sardinha.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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