Pavana por uma infanta defunta

Habituei-me a viver longe do meu país todas as grandes e pequenas crises políticas que atravessámos. A informação chegava-nos lá fora como que a preto e a branco, sem espessura e com uma diluída gravidade - e isto mesmo com todos os modernos e instantâneos meios de comunicação de que passámos a dispor. Essa distância afasta-nos da própria comunidade dos nossos amigos e da nossa vivência em comum do que acontece. Quando voltei a viver em Lisboa, entendi como ser de qualquer forma estrangeirado nos afasta impercetivelmente até mesmo daqueles com quem temos mais em comum.

A circunstância de estar neste momento em Paris a acompanhar o curso das coisas em Portugal cria em mim sentimentos contraditórios: por um lado, e porque esta sequência de acontecimentos só nos está a desenhar o futuro de uma desilusão, há um mecanismo de defesa através do distanciamento a operar em mim; mas, por outro lado, descubro que a minha distância já não pode ser a mesma que eu vivia noutros tempos. Isto quer dizer que irreversivelmente voltei.

Voltar à pátria tem muitas dimensões e talvez por todo o encontro que na minha vida tive com as confrontações entre estranhamento e pertença, isolamento e comunidade, sempre me interessei pelo estudo dessas culturas híbridas e ricas em pluralidade que são as culturas das comunidades migrantes.

Mas quem voltou, como eu, veio viver na comunidade a que pertence com outra paixão e outra angústia. Não que a distância de antes me tivesse poupado a ilusões e desilusões, não que o meu estatuto anterior me tivesse afastado da solidariedade com os meus e da preocupação com as nossas vicissitudes: simplesmente voltei e desde que voltei as coisas estão mais próximas e ferem mais.

Assumir as desilusões é mais fácil na juventude. Na velhice sabemos que não assistiremos a muitos mais ciclos de vida e que os espetáculos da história, ao contrário dos da arte, não têm geralmente um final feliz. Quem não sabia a precariedade de que era feita a solução em que apostámos? Quem podia ter ilusões sobre os cálculos subjacentes a cada um dos parceiros? Quem foi suficientemente ingénuo para acreditar?

E no entanto nós acreditámos na geringonça. Nós, os que votámos em vós. Nós, os piegas, os funcionários públicos do "regabofe", os trabalhadores mal pagos, os industriais produtivos que não puseram os seus investimentos nos casinos bancários nem guardaram os seus rendimentos nos paraísos fiscais, os beneficiários das ajudas sociais, os imigrantes reintegrados, nós que fomos as cobaias da "austeridade expansiva", nós que votamos, nós a quem vós chamais às vezes "o povo de esquerda".

Acreditámos na geringonça como se ela fosse a princesa que íamos despertar para uma promessa de felicidade. Acreditámos com modéstia, com muita parcimónia, bem aquém do que nos deviam, bem aquém do que nos fizeram. Acreditámos, como crianças, numa princesa encantada. E agora isso mesmo que nos era devolvido e que nos compensava do arrogante desprezo com que os outros nos trataram e se preparam para nos voltar a tratar, pois agora tudo isso parece insuficiente aos mesmos a quem antes ainda menos bastava para sustentar uma solução! Como quereis que compreendamos? Como quereis que aceitemos?

Que pavana é essa que toca lá fora?

Diplomata e escritor

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