Para não acabar de vez com a esperança

Sou o senhor de meu destino;
Sou o capitão de minha alma.

William Ernest Henley,
"Invictus" (1875)

Recordei o título do mais conhecido livro de Milan Kundera a propósito destes dias contraditórios. A história decorre na Praga de 1968 e, apesar de tratar de relações amorosas, cruzam-se vida e política, transitando do lampejo de otimismo que rodeou essa curta primavera ao peso de um devir construído de escolhas sem retorno.

Embora as expectativas nunca tenham sido grandes, a Cimeira do Clima que decorre em Glasgow até ao próximo dia 12 de novembro quase se poderia resumir na síntese da jovem ativista Greta Thunberg: blá, blá, blá. Como a imprensa noticia, até Barack Obama se confessou "particularmente desencorajado" por algumas ausências (como os presidentes da China e da Rússia) que parecem ignorar que não há mais tempo. Agora ou nunca. Por isso, Obama apelou aos jovens para que continuem zangados e não deixem de agir.

Poucos dias antes da COP26, um vídeo que se tornou viral mostrava um dinossauro feroz a entrar na sala magna da Assembleia Geral para falar aos líderes mundiais: "Sei uma ou duas coisas sobre extinção. Ser extinto é coisa ruim. E serem vocês mesmos a levarem-se à extinção? É a coisa mais ridícula que ouvi em 70 milhões de anos." Não parece fazer grande efeito este sentido de urgência que o Secretário-Geral das Nações Unidas tem transmitido, mas parece ainda muito longe dos nossos quotidianos (exceto quando ocorrem catástrofes, cada vez mais frequentes, que continuamos a empurrar para debaixo da nossa consciência). Há de haver solução, confiamos, mesmo que muitos segredem interiormente: "não será no meu tempo." A par do clima (e contribuindo para agravar essa crise), temos um problema demográfico que Armando Hoet, diretor do Programa de Saúde Pública Veterinária da Universidade de Ohio definiu nesta equação simples: nos próximos 30 anos, vamos precisar de recursos para alimentar 10 mil milhões de pessoas, o que corresponde ao esforço dos últimos 10.000 anos. A intervenção do Professor Hoet decorreu num seminário sobre "Uma Saúde", um conceito em desenvolvimento que procura uma intervenção multissetorial e transdisciplinar que envolve pessoas, animais e ambiente. Tudo tem a ver com tudo e enquanto não pensarmos desta forma integrada, resolvemos de um lado e complicamos do outro.

Nestes dias lunares, a luz veio do lado dos mais jovens e da sua capacidade de construir mudanças. Esta semana tive o privilégio de assistir ao Encontro Nacional das Escolas Ubuntu, um imenso suplemento de alma que, estou certa, contagiou os que estiveram no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, onde mais de mil jovens (que transbordaram para outras salas, além dos que assistiram a distância) nos encheram de esperança. O programa já tem alguns anos em Portugal, mas cada vez está mais presente em todas as regiões do mundo a partir do Instituto Padre António Vieira, liderado (diria, sonhado) por Rui Marques. Trata-se de um programa de educação não-formal orientado para a capacitação de jovens, que convida a uma viagem interior e desafia a forma como cada um se vê a si mesmo e se relaciona com os outros, inspirando-se na filosofia Ubuntu que Mandela adotou: "Eu sou porque tu és. Eu só posso ser pessoa através de outras pessoas."

O salto dado em Portugal no presente ano letivo é que esta formação integra o Plano de Recuperação das Aprendizagens 21-23, promovido pelo Ministério da Educação e está aberto a todas as escolas. Recuperar as aprendizagens passa, sem sombra de dúvida, por consolidar as competências sociais e emocionais que ficaram tão debilitadas entre os mais novos com a pandemia. Conhecer-se, acreditar em si, aprender a resiliência, desenvolver a empatia com os outros e o sentido de comunidade. Ser senhor do seu destino e capitão da sua alma, os versos que inspiraram Mandela e lhe conservaram a esperança. Não é descritível a emoção que houve no Grande Auditório da Gulbenkian e se irá espalhar pelas 370 escolas que já aderiram ao projeto (outras virão). Foram os jovens que ali disseram como este processo formativo os transforma e deixa sementes que os torna mais capazes de construir pontes para o futuro.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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