Os últimos dias no Afeganistão

A última decisão do presidente norte-americano Joe Biden de enviar mais tropas americanas ao Afeganistão é o último sinal de que muito em breve não haverá mais americanos no país. A retirada de cidadãos americanos e de alguns funcionários afegãos será feita muito rapidamente, mais depressa do que a ofensiva dos talibãs nas grandes cidades.

Após o anúncio da retirada dos soldados americanos do Afeganistão, depois de quase 20 anos da sua presença ali, o equilíbrio de poderes mudou dramaticamente. Os líderes dos talibãs entenderam corretamente que a oportunidade de ganhar com isso estava ali à sua frente e usaram-na. O que resta do governo afegão em Cabul ainda está a tentar chegar a um acordo com as forças talibãs para que lhes reste algum poder, mas agora é improvável que consigam. As coisas já viraram. Ao não terem chegado a esse tipo de acordo antes do anúncio americano da retirada, agora parece que é tarde de mais.

Então, o que se espera que aconteça? É difícil prever, mas o caos gerado pelo fortalecimento dramático do poder talibã será dominante. O governo dos EUA já desistira de apoiar o governo em Cabul com as forças terrestres e apenas continuaram as aéreas, mas isso pode ser limitado aos alvos ligados à potencial ameaça terrorista da Al-Qaeda e de outros grupos terroristas que operam no Afeganistão. Washington ficará muito interessado em ver se os talibãs permitirão à Al-Qaeda vir à tona mais uma vez ou se a manterá oculta. Esse facto decidirá o futuro envolvimento da Força Aérea americana naquele país. Para o governo afegão em Cabul, apoiado por Washington ao longo dos anos, avizinham-se tempos difíceis. Todo o dinheiro, equipamento e anos de treinamento americanos derreteram numa questão de dias, e o medo entre os soldados afegãos tornou-se a principal força na falta de resistência ao avanço dos soldados talibãs. Isso já aconteceu com o Estado Islâmico no Iraque (Mossul) e facilmente se repetirá no Afeganistão.

Para a população afegã, vêm aí certamente tempos difíceis. O seu sofrimento terá de ser justificado por Washington, repetindo que somente as forças locais podem travar guerras locais com sucesso e com resultados de longo prazo, o que é definitivamente verdade. Hoje, a opinião pública americana está decididamente do lado da retirada, mas isso pode mudar de alguma forma no futuro. Assim, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, terá a sua força aérea para enviar, tentando salvar os seus aliados em Cabul, com um sucesso limitado.

É de se esperar uma nova onda de refugiados, que aumentará o sofrimento do povo afegão, após tantos anos de uma busca malsucedida pelo lado que poderia vencer a guerra civil, criar a paz no país e permanecer no poder sem envolvimento militar estrangeiro direto.

Mesmo que os talibãs estejam a conseguir tomar a totalidade do país, também não serão capazes de proporcionar paz duradoura.

Investigador do ISCTE-IUL e antigo embaixador da Sérvia em Portugal

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