Os príncipes na torre

A história dos príncipes na torre, um dos maiores mitos medievais de Inglaterra, foi distorcida pelos mistérios que se lhe seguiram e pela propaganda que lhes dedicaram. Tomás Moro, biógrafo de Ricardo III, fez por instaurar unanimidade entre a dinastia que lhes sucedeu. Shakespeare, na peça que eternizou Ricardo de Gloucester enquanto breve rei, foi talvez o maior responsável pelo perpetuar dessa interrogação: o que aconteceu, afinal, aos sobrinhos de Ricardo III, enclausurados na torre de Londres para este se fazer rei? Não se sabe. Os herdeiros de Eduardo IV não terão sobrevivido à ambição do tio, que foi de regente a soberano com a ajuda do Parlamento após a anulação do casamento dos pais. Dois pequenos corpos foram achados numa escadaria empedrada, dois séculos mais tarde, e devidamente enterrados na Abadia de Westminster. Gloucester, coroado Ricardo III, não teve melhor sorte. O reinado duraria dois anos, até à chegada dos Tudor como solução de paz para a chamada Guerra das Rosas. Henrique VII, que inaugurou esse tempo, foi confrontado duas vezes por pretendentes ao trono que se faziam passar por um dos príncipes desaparecidos. O primeiro, derrotado no seu segundo ano, foi perdoado e integrado na corte como cozinheiro, apesar de antes o terem coroado rei na Irlanda. O segundo, igualmente vergado, seria executado. Ambos tentaram aproveitar-se do sumiço dos York, clamando direito ao trono. Ambos reuniram apoiantes nacionais e estrangeiros com tal reivindicação. E ambos perderam em batalha a significância que a tragédia dos dois príncipes lhes havia conferido.

Ambos [Luís Montenegro e Moreira da Silva] têm algo que faltou, desde 2018, a Rui Rio: uma enorme vontade.

Que importa isto, 539 anos depois? A importância dos mitos numa disputa de poder não perdeu peso, incluindo na nossa política. Veja-se Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva, no PSD. Ambos figuras de proa do passismo - o primeiro, líder parlamentar, o segundo número 2 no partido e coordenador autárquico - e ambos rodeados por figuras que nada dizem a esse legado. Ambos confrontados com um ambiente político manifestamente diferente daquele de que Passos se despediu em 2015, a esquerda era suprema; em 2022, irrelevante, mas não menos atormentados pela presença de António Costa.

Estas duas primeiras semanas de campanha interna entre sociais-democratas foram, aliás, úteis no que toca à quebra de preconceitos. Preconceito número 1: a ausência do parlamento dificultará a oposição ao PS. Vendo os telejornais, e o protagonismo que Montenegro conseguiu em contraste com Rio, a ideia não se confirma. Preconceito número 2: o populismo do Chega impossibilita uma oposição feita por um partido institucional como o PSD. Ouvindo a facilidade com que a Iniciativa Liberal tem deixado o governo sem resposta e o modo como a corrida ao PSD abafou o estrilho de Ventura, o mito facilmente se desfaz. Vai haver oposição e bem variada ‒ nos próximos quatros anos.

A Montenegro falta encontrar o tom, necessariamente menos combativo do que na sua liderança parlamentar durante a troika se pretende poupar-se ao desgaste de alguém que ambiciona 2026. A Moreira da Silva, depois de recuar e avançar no caso da Câmara de Setúbal, falta decidir que tom quer. Ambos têm algo que faltou, desde 2018, a Rui Rio: uma enorme vontade.

Resta saber se, no seu duelo pela sucessão, terminarão executados ou reintegrados como cozinheiros da corte.

Ou, eventualmente, com um dos príncipes que sobreviveram à torre.

Colunista

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