Os regressos de Marx

Em 2013 debateu-se em Berlim a possibilidade contemporânea de uma revolução. De um lado, e com uma resposta positiva reclamando-se de Marx, estava o veterano filósofo e controverso ativista Antonio Negri (1933). Do outro lado, o sul-coreano Byung-Chul Han (1959), que no final dos anos 1980 trocou a Metalurgia em Seul pela Metafísica nas universidades alemãs, sendo hoje uma das mais originais vozes filosóficas do país anfitrião. Han afastou a possibilidade de revolução baseando--se na sua crítica do neoliberalismo, visto como um tipo de capitalismo que atomiza e fragmenta os sujeitos de tal modo que a ação revolucionária se tornaria impossível: "O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido em empresário, em empregador de si mesmo... Também a luta de classes se torna uma luta interna consigo mesma: quem fracassa culpa-se a si próprio e envergonha-se."

Uma obra complexa e singular

Para percebermos, na senda do debate berlinense mencionado, se a obra de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) poderá obter no futuro maior atenção e influência, é preciso fazer um duplo exercício. Primeiro, saber do que é que estamos a falar. Segundo, identificar na plural receção de Marx a vertente voluntarista que marcou o impacto histórico da sua obra. Compulsando a sua vasta bibliografia, poderemos encontrar textos que podem ser agrupados em quatro categorias: 1.º Textos explicitamente filosóficos (sobretudo elaborados na sua juventude, sendo A Ideologia Alemã um dos mais interessantes); 2.º Textos de ciência económica, onde O Capital se destaca exemplarmente; 3.º Textos de carácter político-programático (O Manifesto do Partido Comunista como referência fundamental); 4.º Textos de análise política de temas coevos, como é o caso d"A Guerra Civil em França. Se pedirmos de empréstimo a Harold Bloom, e numa aceção alargada, o conceito de "cânone ocidental", então Marx pertence-lhe claramente, pelo menos a dois títulos: integra, com Smith e Ricardo, os pais fundadores da economia política (ela própria uma aventura nova, pois trouxe para a ciência a esfera mundana da produção e do consumo materiais). Pertence também à tradição filosófica, em particular a esse longo século germânico de brilho especulativo que vai de Kant a Nietzsche. O enigma principal de Marx é o significado da ligação entre economia, filosofia e compromisso político. A rutura de Marx com a filosofia é mais aparente do que real. Na sua 11.ª tese sobre Feuerbach, Marx ao criticar a tradição filosófica por se limitar a "interpretar" o mundo quando o que importaria, agora, seria a sua "transformação", o que faz é dar uma resposta filosófica original - que ele designará como materialista, prática e dialética - ao tema da "realização da razão", herdado do idealismo alemão. Sobre este tema destacam-se os estudos de José Barata-Moura, o melhor tradutor de Marx em língua portuguesa e seu profundo conhecedor.

Como pensador económico e ativista político, Marx concretizou a sua escolha filosófica, movido pelo objetivo de iluminar as relações e os conflitos sociais que se ocultam sob a máscara coisificada das instituições políticas e económicas, como o Estado ou a mercadoria. A imensa ambição intelectual de Marx enfrentou, contudo, dificuldades sérias. A sua teoria política era não só "inacabada" como "incompleta", para usar palavras delicadas do marxista Henri Lefebvre. A sua ênfase em macrocategorias, como "classes" e "modos de produção", deixou de lado os pequenos detalhes antropológicos que fizeram a grandeza de Maquiavel, Hobbes ou Madison. Por exemplo, negligenciou a química diabólica segregada pela política quando um homem - esse mamífero pensante mas territorial como todos os outros - é alcandorado ao topo do Estado, sobretudo se este for desprovido de controlo mútuo entre os seus poderes. A sua classificação, em 1853, da violência imperial britânica na Índia como "instrumento da história" chega a ser patética. Marx, que soube ver tão fundo na alma do capitalismo, alimentou uma expectativa ingénua sobre a sua próxima abolição revolucionária. Não atendeu à lição de Goya sobre a razão e os seus monstros...

Vitória amarga dos discípulos rebeldes

Mas se podemos criticar Marx por ter subestimado o risco da violência política e não ter valorizado a democracia representativa, ao contrário do seu influente discípulo Karl Kautsky (1854--1938), a verdade é que não o podemos censurar pelas decisões tomadas após a sua morte pelos seus seguidores mais marcantes. Antonio Gramsci percebeu o que estava em causa, logo após a revolução bolchevique de 1917. Gramsci escreveu que os bolcheviques tinham feito uma insurreição contra a doutrina d"O Capital. Com efeito, à luz dos prudentes escritos de Marx e Engels onde se procurava vislumbrar o futuro, são traçadas algumas perspetivas claras: a revolução socialista só poderia iniciar--se em países de capitalismo avançado (Grã-Bretanha, EUA, França e Alemanha), e essa revolução deveria ser internacional. Em 1895, Engels advertira que o tempo dos "ataques de surpresa" (Überrumpelungen) confundidos com revoluções sociais já havia passado. Nesta perspetiva, os marxistas russos deveriam ter apoiado uma "democracia burguesa" em vez de a abortar, fomentando a economia numa Rússia analfabeta e atrasada. Contudo, a febre apocalíptica da guerra mundial encorajou Lenine e Trotski - a quem não faltava o génio da tática política - a uma interpretação voluntarista de Marx. Isolada na sua indigência, depois do falhanço da revolução alemã, a URSS foi transformada num sinistro laboratório social de brutalidade totalitária. Em 1949, outra revolução rebentou, apesar de Marx, num país ainda mais improvável: a China camponesa, ainda mais pobre que a Rússia czarista. O advento da atual "teologia de mercado" não seria possível sem o reconhecimento universal do trágico falhanço das tiranias de Estaline e Mao Tsé-tung, a que se juntou depois a rendição da social--democracia à onda neoliberal. Depois de Blair e Schröder, são as próprias proteções keynesianas de um mercado capaz de respeitar os direitos sociais que foram postas em causa. Marx e a sua obra regressarão, certamente, ao plural e urgente debate sobre os futuros possíveis. Contudo, se o seu nome viesse a ser invocado de novo como messiânico profeta insurrecional, isso significaria que a desumanidade do capitalismo triunfante teria devorado a eficácia reformista da democracia representativa, a ponto de fazer esquecer as lições aprendidas com o rasto devastador deixado pelos discípulos impacientes do pensador alemão.

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