Catalunha: o que mais importa, a razão ou a relação?

Talvez o leitor consiga imaginar aquela discussão entre um filho adolescente, com esse toque de rebeldia e irreverência, à procura da sua liberdade e identidade, tão próprio da idade dele... tentando contornar a norma estabelecida por um pai muito mais conservador, que por ser o dono da casa também se acha o dono da verdade.

A discussão até pode ser por um assunto sem grande relevância, a hora da chegada, a roupa a vestir, os amigos a convidar... Mas no meio das palavras cada vez mais altas, o pai, para colocar um ponto e final à discussão, decide terminar a conversa com algo assim como: nesta casa, quem manda sou eu. Se não gostas, a porta da rua é aquela. E o filho, que sabe que esse argumento, enquanto não conseguir a sua independência financeira, não tem resposta possível, para a sua própria salvaguarda, em vez de fechar a porta da rua, fecha a porta do quarto dele.

No fim de contas, era só uma ameaça. Muito mal teriam de estar a correr as coisas, para o pai, efetivamente, colocar as malas do filho à porta. Desta vez, o pai ganhou. E o filho, fechado no quarto dele, ainda se consola a colar posters nas paredes, a fumar às escondidas com a janela aberta ou a por a música aos altos berros...

Deixa o rapaz, pede a mãe, submissa e apaziguadora, enquanto o pai se senta no lugar reservado a ele no sofá, pega no comando e liga o futebol. No fundo, não é má pessoa, só tem a sua própria interpretação da realidade. Talvez se ouvisses o que ele tem a dizer, poderias compreender o seu ponto de vista, acrescenta a mãe. E o pai, chateado com a conversa, olha para ela, e não parece bem disposto.
O que sabes tu... Diz, um tanto prepotente. Esta é a minha casa e aqui as coisas são como eu digo. E o jantar, está pronto ou faz-se sozinho?

Deseja viver em harmonia, mas não tem as ferramentas certas para conseguir o entendimento. E no fundo do coração, sente que a rutura é cada dia mais iminente.


E a mãe regressa, cabeça baixa, à cozinha. Pelo menos tentou acalmar a situação, pensa ela, em forma de consolo. Ela também está infeliz com toda esta situação. São os homens da vida dela, tão iguais e tão diferentes. Deseja viver em harmonia, mas não tem as ferramentas certas para conseguir o entendimento. E no fundo do coração, sente que a rutura é cada dia mais iminente. Quando o filho crescer mais um pouco e tiver dinheiro suficiente para fazer a vida dele, ela sabe que ele irá vivê-la à sua maneira.

Será um erro sair de casa tão cedo? Talvez, pensa ela, mas também sabe que terá de ser algo pelo que o filho tem de passar. Ainda tem tanto por aprender... Como mãe, espera que algum dia, o filho regresse e quanto gostaria que pudessem viver os três juntos, para sempre.
Nem penses, enquanto tiver um pai como aquele, nesta casa não há lugar para mim... responde o filho, à espera do dia sua independência. E apesar dos gritos e da crispação permanente, a mãe sabe quão dura será a rutura. Não quer separar-se do filho, mas também não consegue fazer frente ao pai dele.

Quando nós tínhamos a idade dele, obedecíamos aos nossos pais, fazíamos o que eles mandavam, até ficavam com o dinheiro do que nós trabalhávamos... Porque é que ele tem de ser tão teimoso e diferente de nós? Pergunta o pai, sem encontrar a resposta. Não compreende o filho, como se não falaram a mesma língua, como se pertencessem a planetas diferentes... Mas na verdade, são muito mais parecidos do que eles pensam. Na verdade, os dois estão à procura do mesmo: respeito pela sua identidade. E de tão parecidos que são, transformaram-se em polos opostos. Perseguem os mesmos valores, mas fazem-no de forma contrária. O pai, pela imposição. O filho, pela rutura.

Até hoje Espanha foi como a conhecemos, como naquela casa de outro século, onde o pai mandava, a mãe calava e o filho obedecia. Mas na família de hoje, a mãe também intervém, o pai aprendeu a escutar e o filho tem a sua própria identidade. E juntos conseguem criar um novo lar onde todos encaixem.

E talvez, se um dia se sentassem a dialogar, poderiam encontrar um entendimento. Se acordasse um nos sapatos do outro... Talvez o filho adolescente poderia perceber que há regras que convêm serem respeitadas pelo bem-estar da própria convivência. Talvez o pai entenderia que poderia ser mais flexível com o filho, pois acima da razão, está sempre a relação. E assim, a dialogar, juntos, no sofá, de televisão desligada, a mãe finalmente poderia sorrir. Será que ainda é possível salvar a união familiar? Não importa como foi no passado, com diálogo podem criar uma nova realidade, com inteligência para compreender e humildade para ceder. Porque quando falamos de sentimentos, ninguém pode tirar ao outro uma parte da razão...

Esta poderia ser apenas a história de uma família qualquer... mas também poderia ser a historia da Espanha e da Catalunha. Sem diálogo, a rutura é iminente. Sem tolerância, não há convivência possível. É verdade. Até hoje Espanha foi como a conhecemos, como naquela casa de outro século, onde o pai mandava, a mãe calava e o filho obedecia. Mas na família de hoje, a mãe também intervém, o pai aprendeu a escutar e o filho tem a sua própria identidade. E juntos conseguem criar um novo lar onde todos encaixem.

Porque, caso contrário, antes ou depois, o filho sairia porta fora, para nunca mais voltar. No início, o pai até poderia sentir que venceu, com esse orgulho que às vezes nos impede ver mais além da realidade. Mas depois é provável que sentisse que com a partida do filho, ele também fica a perder... Não?

Como vai ser a história de Espanha e Catalunha? Essa história é muito mais complexa... Ou será que essa história, como a desta família qualquer, também se poderia resolver com menos orgulho e mais diálogo, menos ódio e mais tolerância, com menos crispação e mais coração? O que importa a razão quando o que está em causa é a nossa união?

Escritora e jornalista espanhola a viver em Portugal​​​​​​​

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG