Sócrates em três atos

1. Sócrates fala e inverte o ónus da prova? Quem tem de provar? A acusação ou aquele que é acusado? Ou, neste caso, suspeito de acusações muito graves, como é o caso dos crimes de corrupção que lhe são imputados. A entrevista do ex-primeiro-ministro ontem à noite à TVI tem um antes, teve um durante e terá um depois.

O "antes" são semanas de conversa, dias de negociação, horas de argumentos trocados. José Sócrates já tinha desistido uma vez, há uns meses, recusou uma entrevista combinada quando ainda estava preso em Évora, por não concordar com as perguntas que a TVI lhe fazia. Estava em inferioridade, reconheço, inclusivamente física, dentro de uma jaula, num contexto em que nenhum de nós deseja estar, em companhias que não se recomendam nem procuram.

Estive em sua casa, na verdade na casa emprestada pela sua ex-mulher, para voltar à conversa. Uma, duas, por quatro vezes lá estive, sem assunto encerrado. Havia um processo semelhante com uma televisão concorrente. Com a qual, pelo que ia percebendo, José Sócrates tinha tudo mais adiantado: o modelo, os temas, a duração da entrevista.

Abro um parêntesis para advertir que isto é algo normal, nas entrevistas digamos mais sensíveis, aqui ou em qualquer parte do mundo. Isto pode, é deontologicamente aceitável, o que não se pode é dar a conhecer previamente o questionário. Negociar as perguntas. Aceitar restrições que comprometam ou limitam a função essencial do jornalista, que é perguntar. Querer saber o que não se sabe. Pedir que se explique o que não se percebe.

Neste "antes", Sócrates só confirmou que iria falar com a TVI, após a quarta ronda de conversas, por telefone e fechados que estavam os quatro grandes blocos da entrevista, a primeira que Sócrates daria após a sua libertação - diria, até, a sua detenção em novembro de 2014, porque aquelas que ele foi dando a partir do Estabelecimento Prisional de Évora sofriam dos constrangimentos que acima referi.

Desta vez não: o homem teria o jornalista à sua frente. E ele estaria à frente de mais de milhão e meio de espectadores. Para falar de tudo.

Das circunstâncias em que foi detido e do regime de prisão a que foi votado, durante praticamente um ano.

Das suspeitas de corrupção que impendem sobre o ex-político que, no exercício das funções públicas, terá beneficiado o Grupo Lena (em contratos públicos) e o empreendimento Vale do Lobo (num regime de exceção que o Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve, o famoso PROTAL).

Da origem e da propriedade do dinheiro do seu amigo Carlos Santos Silva, suspeito de ser o "testa-de-ferro" que encobria os crimes investigados pelo Ministério Público.

Da política que entretanto levou o PS regressar ao governo, embora em circunstâncias absolutamente insólitas na história da nossa democracia.

2. Não, José Sócrates não inverteu o ónus da prova na entrevista que os portugueses ontem tiveram a oportunidade de assistir. Numa extensa descrição sobre os momentos que antecederam a sua detenção, o que aconteceu nos interrogatórios, a renovação sucessiva das medidas de coação, o apontar o dedo à investigação - e, pela primeira vez, a responsabilização que dirigiu à procuradora-geral da República -, o "durante" da entrevista de Sócrates à TVI foi exatamente aquilo que a maioria viu. É um homem acossado, é um suspeito indignado, é um cidadão inconformado, é um político pronto para o combate.

Esta primeira parte da entrevista de José Sócrates limitou-se a abrir mais brechas num processo demasiado mau para ser verdadeiro. Um ataque cerrado à Justiça. Viagem ao interior de uma investigação que, manifestamente, está em dificuldade para deduzir uma acusação.

O cidadão inocente não se declara, só se presume. Mas diante do embaraço do Ministério Público, nem é bom presumir o que acontecerá ao nosso sistema judicial caso se confirme o que se teme - que há um juiz, um procurador e um inspetor tributário que pisaram a mina e não sabem como tirar dali o pé.

A importância desta entrevista que José Alberto Carvalho conduziu não esteve nas revelações bombásticas. Sócrates não fez acusações terríveis nem trouxe novidades espantosas. Foi um relato, por vezes intimista, quase sempre em contra-ataque, de um filme que, queira-se ou não, tem sido contado à vontade de cada freguês.

Tenho de dedicar umas palavras breves, mas inteiramente justas, a um jornalista credível, um homem íntegro, um grande pivot de televisão, o melhor entre os pares, que viveu dias de enorme pressão no "antes" e não se deixou condicionar por juízos intimamente já formados. José Alberto Carvalho deu tempo, deixou falar, deu um exemplo de sobriedade e imparcialidade, enfim, um ato de coragem, num país em que o normal é encarar a entrevista como o momento para o entrevistador brilhar.

3. É aqui que chegamos ao "depois". À corrupção de que suspeita. Ao dinheiro que sustenta a vida faustosa. Carlos Santos Silva. Grupo Lena. As cunhas de negócios metidas ao ex-vice-presidente da República de Angola. Vale do Lobo. E as coisas da política. O que faria Sócrates no lugar de Costa? O que disse sobre Cavaco Silva? Em quem votará nas presidenciais.

José Alberto Carvalho e José Sócrates estiveram três horas num estúdio de televisão, onde todas as perguntas foram feitas, as respostas não foram condicionadas pelo tempo que existe, enfim, uma entrevista "à antiga", em que apenas não coube tudo numa noite. Mas a conversa continuou e poucos tiveram a oportunidade de assistir no estúdio. Muitos poderão fazê-lo logo à noite.

Zé questiona, Zé responde. Zé pergunta, Zé reage. As pessoas estão chocadas. E hoje poderão ficar ainda um pouco mais surpreendidas. Sócrates fala de Carlos, declara-se inocente. Não sabemos se se safa em tribunal, ou sequer se lá chegará - e, se não for, muito grave se tornará. Na televisão funcionou. Não foi julgado. Apenas entrevistado. Foi ouvido e, assim, continuará. Amado e odiado. Nada que o absolva ou condene.

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