O Orpheu não morreu

1 O que impressionou no congresso do PS não foi a "vaia democrática" ao crítico Assis. Não foi a afirmação esmagadora da liderança de Costa. Não foi sequer o aplauso incondicional a esta guinada à esquerda. Nem o entusiasmo pelos feitos do governo, porque não há governo no mundo que consiga convencer em seis meses.

Não foi a festa, pá! Não foi a unanimidade. Não foi a coerência. Não foi a afirmação. Foi a desistência e a negação. Não é a vaia ao crítico. É a ausência de críticos. É constatar que o PS, afinal, está tal e qual o país: dominado, domado, desaparecido - porque desapareceu tudo o que mexia à volta do primeiro-ministro.

É esta capacidade de destruição massiva de António Costa aquilo que, verdadeiramente, continua a espantar. Dizimou a oposição - porque, na oposição, Portas pediu a reforma antecipada e Passos recusa-se a entregar um pin que já não devia estar na sua lapela.

Insisto: o homem saiu das eleições derrotado, logo ali contestado, já era! Estava condenado há seis meses, a sua execução era apenas uma questão de tempo. Pouco tempo, não era sequer uma questão. Mas quem lhe tentou cortar a cabeça perdeu a língua. Quem o declarou morto, curva-se diante do todo-poderoso.

Costa é poderoso, os revoltados conformam-se e isso já aconteceu com outros e noutros tempos. Não tinha acontecido nunca assim. Os "socialistas do centrão" afinal sempre foram amigos dos comunistas e primos de bloquistas. Best friends forever. A Europa nem por isso, aqui está a quadratura do círculo e a "relação mais tensa" é o eufemismo, o "nim" de quem nunca hesitou, nem nunca contrariou a Europa.

O PS não é só um partido que o poder une. É uma terraplanagem nunca antes vista, nem no PS de "papo cheio" de Guterres nem no PS prepotente de Sócrates. Assim, tão subitamente, desta forma tão surpreendente, um Lázaro que se ergue e derruba toda a gente é inédito na vida democrática portuguesa. Em tempo recorde e desta forma tão mortífera e implacável.

Costa não é Fénix, é um mutante, um X-Man com poderes especiais. Não é só refazer-se das cinzas. É desfazer todos em cinzas.

2 O elogio a Costa é, portanto, o reconhecimento da mediocridade dos seus críticos e adversários. O que significa a confissão do fracasso de ambos. Costa calou uns e derrubou outros. Sem muito que fazer, sem precisar sequer do tempo.

"E tivemos os que riam de nós por não nos perceberem; e tivemos os que nos seguiram por não nos perceberem também. Estes últimos imitavam em nós precisamente o que em nós era exterior e por vezes acidental - o mesmo de que os outros riam." Quem se riu e quem seguiu o movimento Orpheu não é, um século depois, quem ri e quem segue a geringonça.

Esta estranha coligação que se consolida. Esta conveniência que se transformou numa inevitabilidade: "Esta revista é, hoje, a única ponte entre Portugal e a Europa e, mesmo, a única razão de vulto que Portugal tem para existir como nação independente." Pessoa em Costa, o Orpheu não morreu.

"Ler Orpheu é o único ato civilizado que é possível praticar hoje em Portugal", escrevia o poeta na célebre revista que, como se sabe, não durou muito tempo. Mas o movimento ficou para sempre. Palmas a Jerónimo, aplausos para Catarina: "É difícil ser socialista dentro da Europa, fora dela é impossível." O mesmo poderia ter discursado em relação ao seu governo.

"Há apenas duas coisas interessantes em Portugal - a paisagem e Orpheu", sendo que "estava em Portugal há dia e meio a reparar a paisagem e levei ano e meio a reparar em Orpheu". Em seis meses, quadratura do círculo, destratado orçamental, trinta e cinco horas, @costabem, @costamal, tudo o resto que se resume a silêncio.

Os banqueiros não ficaram anarquistas, estão simplesmente falidos. Os empresários sumidos. Os poderosos dissimulados. A coisa está mesmo colocada nestes termos: é entre Costa e a Europa. O resto é paisagem: "Todo o material de embalagem que há pelo meio é palha usada e podre; serviu lá fora, no resto da Europa, e acaba os seus dias entre as duas coisas interessantes existentes em Portugal. Às vezes estraga a paisagem pondo nela portugueses, mas não pode estragar Orpheu porque é à prova de Portugal."

3 Estes excertos de texto de Fernando Pessoa, texto titulado "Eh-lá!", são uma das várias provas de como tão bem ele se sabia vender. Nem percebo porque, pelo PS, pelo congresso, pelo que se viu, cheguei a ele. Talvez porque das outras coisas fugi. Da direita que se entorta, da banca que deixou esfrangalhada, das finanças públicas que incumpriram, da saída limpa que foi uma fuga borrada.

A direita portuguesa está para a esquerda quanto "a literatura moderna portuguesa" estava para Pessoa: "O melhor é dobrar a esquina quando ela aparece; é o eco de um eco de um eco de algo que não valia a pena ter sido dito." Ou nascido, assim como ela hoje existe.

Eh-lá! O Orpheu não morreu. Está lá, mas "dificilmente pode ser lido por toda a gente. Se tanto, poderá ser lido por muito poucos. Mas vale a pena lê-lo". Valeu a pena aprender português só para os ler. A Pessoa, a Sá-Carneiro, a José de Almada Negreiros - "são prosa, não desenho" -, aqueles que "hão de ser qualquer coisa que se não espera e que não poderá deixar de causar surpresa".

Esta é hoje a certeza. Portugal foi, neste lapso de tempo, a coisa que "se não espera". É uma confissão de humildade, todos o subestimamos. Não apaga, porém, o medo desta vertigem incontinente. Como Orpheu, a geringonça "não poderá deixar de causar surpresa". Isso é certo e seguro. Para o bem ou para o mal, há cem anos a revista fechou ao fim de meses.

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