Está a morrer a gente de que gosto

1 Vivo perturbado todos os dias com esta injustiça social. Quando me acontece uma coisa boa, como ganhar dinheiro, há sempre em mim um sentimento de vergonha. Penso nas pessoas que naquele momento não sabem se têm dinheiro para almoçar ou para dar comida aos filhos.
Não sei se eram exatamente estas as palavras, mas a ideia é aqui reproduzida com o rigor possível e da melhor forma que a memória me permite. Nicolau Breyner celebrava, salvo o erro, os 50 anos de carreira e numa entrevista notável, daquelas que Anabela Mota Ribeiro faz, exibia um traço de carácter que mais tarde pude pessoalmente testemunhar: era um homem bom. Bom e justo, que são coisas completamente diferentes, como me ensinou José Viana, outro gigante que também tive o privilégio de conhecer muitos anos antes de ele se ter ido embora.
Não posso entrar na fila das condolências públicas de quem, nestas alturas, evocando um passado, reivindica amizades, partilha intimidades, enaltece qualidades, conta histórias que atestam a enorme dignidade. Não posso simplesmente porque não era amigo de Nicolau, não o conhecia há anos e anos; tal como a esmagadora maioria dos portugueses, habituei-me a admirá-lo, sem com ele alguma vez me ter cruzado.
Não posso mas faço-o à mesma. É normal, embora por vezes hipócrita ou oportunista, que esta máquina do elogio comece a funcionar sempre que alguém como o Nicolau Breyner morre. Também, à minha maneira, não resisti à tentação de o fazer. De regressar às horas, escassas mas intensas, demasiado escassas, que acabei por com ele viver no último ano. Daquela frase, que à distância, me impressionou, porque na altura soou a coisa estranha, quase beato, mas que me bateu só ontem, com a notícia de que o alentejano abalou, de uma forma espontânea e com um significado totalmente diferente. Não por Nicolau ter morrido. Mas por entretanto o ter conhecido.

2 Confesso que tinha três ou quatro hipóteses de tema, para a coluna desta semana, mas ao saber da sua morte, perante o choque e o inesperado, deixou de me apetecer. Já me tinha acontecido algo parecido com José Fonseca e Costa, pessoa mais próxima, caminhos cruzados em várias ocasiões e em diferentes papéis.
Mas depois de Nicolau ter passado por mim, ainda que fugazmente, e com uma folha Word em branco à frente, deixo para outras núpcias a ascensão do rei Marcelo. Espero que passe à senhora ministra recém-chegada aos Assuntos Internos a arrogância ignorante revelada (ou a ignorância arrogante, dá igual...) contra a Plataforma de Apoio aos Refugiados, que tem feito aquilo que o Estado não fez, que é um exemplo raro de resposta em rede da sociedade civil, que compara com a inércia e a imoral passividade dos organismos públicos que dela agora dependem.
Enfim, não dava nada para descer à mesquinhez desta civilização em que nos vemos perdidos, quando acabávamos de perder um homem verdadeiramente civilizado?!
Na novela que ainda não estreou na TVI, A Impostora, pediu ao autor da história para fazer de pobre. Ao saber disso, nova remissão àquela frase, com talvez mais de cinco anos, aquela coisa simples que confessou à Anabela, de que se envergonhava com a pobreza. Ou talvez que se envergonhava consigo mesmo, incapaz que era de acudir a todos os que não tinham o dinheiro que merecidamente trabalhando ganhava.
Só percebi, depois de o conhecer, que aquilo não era uma falsidade moral. Conheci-o, aliás, entre pobres num país de pobreza. Estava apaixonado por São Tomé, viajámos juntos e coincidentemente de Lisboa para uma terra a que ele voltava sempre que podia. E foi isso que o fez aceitar um papel que não entusiasmava, num filme que simplesmente aviltava.
Para quê?! Porquê?! Se a personagem é bera e se o filme nada te diz, porque estavas então ali? Era daquelas perguntas que tinha a resposta lá dentro: pois era exatamente por isso, para ali estar. A São Tomé e Príncipe ia sempre que podia. Tinha planos para lá assentar. Queria recuperar o velho cineteatro, porque não há em todo o país uma única sala para exibir filmes.
Viajámos para lá e, nova coincidência, para cá voltámos a voar juntos. Pelo meio, combinávamos refeições, eu admirando a sua simplicidade, ele achando graça vai-lá-saber-se-porquê. Talvez por lhe ser próxima a pessoa que me acompanhava, o facto é que passámos belos momentos. Tive essa noção quando, já em Lisboa, nos cruzámos no lançamento do último livro da Fátima Lopes, minha colega na TVI.
Abraços, beijos, eles, a malta do teatro, beijam sempre. Eu também gosto. Beijo quem gosto. E gostava do Nicolau porque sim. E jantares a quatro sempre planeados e nunca concretizados. O vazio que fica. O último abraço que trocámos, no estúdio de Informação, vésperas de Natal, a entrevista que foi dar a Judite Sousa, que deverá ter sido a última que Nicolau deu.
Fui lá recebê-lo, era afinal o anfitrião. Acabei por ser eu recebido. Com a doçura de um amigo que iria ser. Sim, é lamechice, pode ser apenas a minha forma de dizer, a todos que desde ontem lhe prestam homenagem, aos sinceros e aos simulados, aos que sentem e aos fingidos - pois que elogiem!
Que só digam coisas boas e bonitas. Façam-no porque Nicolau merece. Ele estava no lado dos justos, era um daqueles que pertenciam ao mundo dos homens generosos e sinceros. Ainda que sejam póstumos, mesmo que cumpram os rituais, que sejam formais, digam tudo de bom que possa ser dito. Eu Show Nico. Eu choro Nico. Se ainda não estou velho, porque estará a morrer toda a gente de quem gosto?!!

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