O cavalheiro das camélias

José Marques Loureiro é um homem a quem o Porto deve um dos seus mais belos pedaços. Uma das melhores varandas da cidade sobre o Douro, o Jardim das Virtudes, e os seus socalcos de relva que se vão debruçando sobre o rio são um refúgio de sonho no meio da azáfama citadina. Um spot instagramável como poucos, sobretudo se a hashtag for #pordosol, mas que, acreditem, consegue manter-se discreto e tranquilo entre as invasões turísticas destes tempos.

Sirenes de ambulância a chegar ao Santo António, ali ao pé, buzinadelas de condutores presos no trânsito em direção à Baixa, hordas de turistas nas ruas circundantes, tudo isso se dilui entre as frondosas copas de árvores e arbustos do jardim onde o tempo corre ainda ao mesmo ritmo com que corria no século xix, quando José Marques Loureiro lhe deu forma.

Rapaz de Viseu com pouca vontade de seguir a rígida disciplina escolar em Besteiros, pediu para se mudar para o Porto, para casa de um amigo endinheirado do pai, conhecido como Pedro das Virtudes, que depois da guerra fratricida entre liberais e absolutistas ficara dono do casarão que hoje é a Cooperativa Árvore.

Marques Loureiro fez do Porto a sua casa e daqueles jardins o seu projeto de vida, ali construindo um horto que, contavam as crónicas de época, não tinha rival na Península Ibérica.

Nesse horto de José Marques Loureiro, hoje Jardim das Virtudes, reinavam então as japoneiras que fizeram da camélia trazida de Oriente a flor da Invicta. "Se A Dama das Camélias de Dumas Filho não vivesse em Paris, viveria certamente no Porto", escrevia Alberto Pimentel, no Guia do Viajante do Porto, no início do século passado.

A "flor do inverno" (o que ajuda a perceber a sua relação íntima com o Porto) celebra-se anualmente pela cidade por estes primeiros dias de março. O que é sempre um bom lembrete para evocar o valioso legado de José Marques Loureiro e voltar ao jardim que nos deixou.

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Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.