Quem são os candidatos a ministro das Finanças?

Mário Centeno andou demasiado desaparecido nesta crise pandémica. Demorou a aparecer fora do Terreiro do Paço, apareceu mais na pele de presidente do Eurogrupo... até que, esta semana, a polémica política em torno da transferência do Estado para o Novo Banco colocou-o debaixo dos holofotes.

A tensão entre as Finanças e a Economia e o próprio primeiro-ministro vem de trás e ficou exposta na (aparente) desautorização do primeiro-ministro, relativamente à transferência dos 850 milhões de euros para o Novo Banco, antes de concluída a auditoria.

Esta quarta-feira, no parlamento, a oposição fez de Centeno o alvo. Antes, na visita à Autoeuropa, o presidente da República elogiou as recentes declarações que o primeiro-ministro fez no parlamento (acerca do Novo Banco) e terá ferido de morte o ministro das Finanças.

Centeno não caiu (ainda) na última noite, mas tudo indica que passou a contrato a termo. Com o seu peso político fortemente beliscado, Mário Centeno terá poucas condições e, sobretudo, poucas motivações, para continuar nas Finanças. Aliás, desde que falhou a nomeação para o FMI que o brilho embaciou o olhar do ministro. A sua ambição ficou amputada e a reputação afetada com o recente artigo de um jornal alemão que o colocou em causa, questionando a sua habilidade para gerir a importante pasta do Eurogrupo.

Ainda há pouco tempo Mário Centeno era considerado o Ronaldo das Finanças. A revista The Banker, suplemento do Financial Times, elegeu-o como o melhor ministro das Finanças da Europa, em janeiro de 2019. É curioso que, tal como no futebol que agora vai retomar, se passa de bestial a besta num instante. A propósito de futebol: tudo isto acontece no mesmo governo que afastou secretários de Estado competentes, e amigos próximos de António Costa, que foram demitidos por causa de bilhetes para a bola.

Resta-lhe a jogada, há muito ambicionada, de marcar golo no Banco de Portugal. Mas para ser governador, tem de ser indicado pelo primeiro-ministro e seus pares de governo. Veremos que drible fará para alcançar essa meta.

Nas Finanças, que perfil terá de ter o sucessor do CR7? Tem de ter espírito de trabalho em equipa, não respirar vaidade pessoal, ser discreto, muito pragmático, sem medo ou complexos de gerir um orçamento suplementar (que necessariamente terá de aumentar a despesa) e ter estofo para lidar com um défice em vez de um superavit .

O novo CR7 das Finanças terá ainda de acumular nas suas competências um sentido de conjunto, de convergência e sinergias entre os vários ministérios para vencer a nova recessão viral e uma visão estratégica acerca do futuro do país no pós-crise. A meu ver, não tem de ser um doutorado em Finanças (como defendem alguns apressados analistas), até porque esse canudo poderá não ser diferenciador na conjuntura que vamos atravessar e nem servirá para o Eurogrupo, já que a cadeira não será ocupada por um português a partir de julho.

Respondendo à pergunta que é o titulo deste artigo, quem poderá então ocupar a pasta a partir de Junho, se Mário Centeno sair nessa altura (já com o fundo de recuperação europeu concluído e anunciado)? Nas Finanças, destaca-se Mourinho Félix, secretário de Estado Adjunto e das Finanças, que se tem revelado o melhor preparado e foi ganhando reputação (apesar da influência de António Mendonça Mendes, secretário de Estados dos Assuntos Fiscais, no PS).

A atual e profunda crise económica e social exige peso político e lealdade comprovada com o chefe de governo. Por isso, Pedro Siza Vieira poderá ser o homem certo, até porque tem sido o rosto da linha da frente, na coordenação do combate económico à crise Covid-19, lado a lado com António Costa.

Muitas medidas chegaram tarde ao mercado, e foi criticado por isso, mas muitas delas também terão demorado por exigirem negociações duras com as Finanças. Apesar da lentidão, o ministro esteve lá. Nunca se escondeu no gabinete.

António Costa decerto contará ainda com a sua capacidade de coordenação como uma espécie de vice primeiro-ministro aquando da presidência da União Europeia, já no primeiro semestre de 2021. Também por isso, nas últimas eleições, foi escolhido para ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital.

Será excessivo juntar, nesta conjuntura excecional, a pasta da Economia com a das Finanças? A decisão não seria inédita. António Costa conhece bem esta solução. No XIV governo constitucional, liderado por António Guterres, Joaquim Pina Moura acumulou a Economia e as Finanças, e António Costa fez parte desse executivo.

Estes são os dois nomes (Siza Vieira e Mourinho Félix) mais prováveis dentro do atual executivo, mas António Costa pode voltar a surpreender com uma terceira opção fora do governo.

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