Diz-me a tua pulsação e eu digo se saio contigo

As revoluções tecnológicas não existem, são simplesmente o lado mais visível de um processo evolutivo. Só que por vezes um tipo de aparelho ou aplicação, há muito imaginado e desenvolvido por cientistas e engenheiros, torna-se um êxito tal junto dos consumidores que rapidamente o nosso imaginário assume-o como a ocorrência de uma mudança radical.

Não quer isto dizer que o mundo não tenha ficado diferente. Apenas que essa mudança se faz de uma forma muito mais gradual do que normalmente os media ou os técnicos de marketing gostam de dizer.

O exemplo mais evidente é a forma como as pessoas com menos de 25 anos (ou assim) comunicam atualmente no mundo ocidental. Nestas idades, já quase ninguém fala ao telefone - não sendo com os pais ou outros "velhos". Utilizam sistemas de mensagens instantâneas, redes sociais, fotografias e vídeos que se apagam automaticamente ao fim de certo tempo, ou até escolhem discutir em público através de fóruns online. Mas pegar no telefone para falar com alguém é-lhes algo quase estranho.

(Isto tem até consequências curiosas, como o olhar de quase pânico que já vi em estagiários aqui do jornal quando lhes peço para "ligar" a alguém para confirmar uma informação...)

Simultaneamente, nunca houve geração tão "social" como esta. O sentido de privacidade dos mais novos é completamente diferente do que têm os que nasceram pré--1990. A ideia de partilhar pensamentos íntimos ou experiências com o mundo (com pessoas que nunca viram nem alguma vez verão), impensável há 30 anos, é hoje algo absolutamente natural.

Criam-se assim hábitos e métodos próprios. E até o léxico evolui. Qualquer jovem ocidental hoje em dia descodifica a expressão swipe left ou swipe right. O método de "fazer deslizar" no ecrã, rejeitando ou aceitando, as fotos dos participantes da "rede de engate" Tinder é tão comum que em alguns círculos haverá já quem pense "como é que se engatava alguém antigamente?!"

Tal como tudo o mais, este tipo de ferramentas não para de evoluir. E o caminho imediato é claro. A capacidade das tecnologias digitais de recolher dados de múltiplas fontes e de encontrar padrões no caos do material em bruto, associados a um sentido cada vez menor de privacidade, leva a que estejamos no dealbar de novas formas de interação.

Cada portador de uma pulseira ou smartwatch tipo Fitbit, Garmin ou Apple Watch está voluntariamente a entregar a terceiros dados biométricos íntimos como a sua pulsação em pico e repouso, horas de sono, etc. (O Fitbit Ionic, apresentado nesta semana, mede até o nível de oxigenação do sangue.) Estes elementos servem para traçar médias - relevantes para aferir o estado de saúde de estratos da população - e, claro, para definir o perfil do utilizador. E criam novas áreas de competição relativamente ao estado físico, tanto entre indivíduos como perante a comunidade em geral.

Alguém tem dúvidas de que estes dados já estão a ser usados por grupos de "amigos" nas redes sociais para decidir se este ou aquela são bons ou maus engates? Este tem uma pulsação em repouso acima de 70! Swipe left!!

Entretanto, outros sistemas de diagnóstico vão-se tornando comuns. Três exemplos: sistemas de medição de glicose no sangue sem agulhas (a Apple e a Fitbit estarão a desenvolvê-los); termómetros e apps capazes de medir a fertilidade feminina; e até apps para detetar doenças como o cancro. Nesta semana foi mostrada uma app - a BiliScreen - que usa a câmara do smartphone para ler a cor do branco dos olhos, para assim detetar sinais de cancro no pâncreas.

Este tipo de tecnologias serão rapidamente tão comuns quanto enviar uma foto que se autodestrói a um amigo. E com elas mudará mais uma vez a forma como nos avaliamos uns aos outros, os métodos de decisão quanto aos nossos relacionamentos. Mas não será uma revolução, apenas a evolução natural daquilo que significa ser humano.

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