A extrema-direita e nós

Passadas décadas sobre o fim da segunda Guerra Mundial, a queda das ditaduras em Portugal e Espanha e do muro de Berlim, a extrema-direita está de volta à maior parte dos parlamentos europeus. Devemos estar preocupados? Não sabemos. O que sabemos é que o fenómeno não deve ser banalizado, ao contrário do que alguns pensam.

Recentemente, saindo da sua letargia política, Nuno Melo, cabeça de lista do CDS nas próximas eleições do Parlamento Europeu, resolveu afirmar que o VOX, partido que em Espanha alcança agora 10% do eleitorado e 24 deputados, não é de extrema-direita. Paulo Portas, antigo presidente e sempre presente dirigente do CDS, rectificou a triste análise, afirmando que se podia utilizar o termo extrema-direita, desde que o qualificativo fosse estendido aos partidos mais à esquerda, como o Podemos, em Espanha, ou o Bloco de Esquerda e mesmo o PCP, em Portugal. Esta interpretação tem seguidores nos vários meios de comunicação social nacional, de formas mais ou menos sérias. Todos temos direito às nossas opiniões, mas a verdade é que as opiniões fundamentas valem mais. Acontece que a história da Europa ocidental não permite igualar os dois extremos da politica partidária, não sendo, portanto, legítimo banalizar a comparação.

Por terras lusas, uma outra forma de banalização da extrema-direita já foi usada e isso deve ser notado, mesmo que o exercício tenha sido fundamentalmente pueril, uma vez que por essa via as coisas também ganham terreno. Essa outra forma consistiu em anunciar que, no século XX, Portugal teve tanto uma ditadura de direita (a Salazarista, claro) como uma de esquerda. Chamar ao período da República (1910-1926) uma ditadura é mais do que ignorância, é não querer mesmo saber.

Mas o que ensina a história da Europa, relativamente aos extremos políticos? Há ou não uma simetria entre extrema-direita e esquerda? A resposta simples é dizer que não, tanto a ocidente como a oriente do Continente. Na verdade, em toda a Europa ocidental, não houve um único caso de ditadura de esquerda, muito menos de "extrema" esquerda. A Leste, as ditaduras foram de "esquerda", se quisermos, mas nunca de extrema-esquerda. O extremismo social, económico e político aconteceu na União Soviética antes, durante e depois de Estaline, com milhares de mortos, deslocados e presos políticos. O império soviético governou a Europa central, da Alemanha de Leste à Polónia, dos países bálticos à Bulgária, mas esses regimes não foram de extrema esquerda.

Uma resposta mais complexa à pergunta acima levantada obriga ainda recordar que, antes da segunda Guerra Mundial, em países como a França, a Grã-Bretanha, a Irlanda ou a Itália (ou até na Bélgica e nos Países Baixos), forças de esquerda próximas do leninismo ou estalinismo soviéticos ganharam grande importância política. Todavia, nunca governaram em ditadura, nem puserem em risco os direitos e as liberdades fundamentais. Acontece que, nos países institucionalmente mais avançados, essas forças acabariam por ser combatidas e vencidas, por via democrática. E, nos demais, por via, precisamente, da ascensão da extrema-direita, sob as várias formas de fascismo, em processos que levaram ao fim dos direitos cívicos, à guerra, ao Holocausto e às duas mais longas ditaduras europeias.

Podemos querer comparar tudo, apenas com a nossa imaginação por limite. Contudo, há exercícios de comparação que não conseguem ser sufragados pela história, como é o caso daquele que Nuno Melo, Paulo Portas, os revisores da República e associada intelligentzia pretendem fazer. Todos eles deveriam talvez recordar que a banalização da extrema-direita é um exercício perigoso.

Entretanto, num quadro de alastramento do pensamento político da extrema-direita europeia, Portugal, juntamente com a Irlanda, estão de fora. Por quanto tempo? Para sabermos responder a essa outra grande pergunta temos de perceber melhor as origens da ascensão da extrema-direita, para o que não ajuda seguramente a banalização da questão. A resposta variará de país para país, uma vez que o fenómeno tem origens diversas, desde as marcas da Guerra Civil, em Espanha, à pressão migratória, na Hungria, mas todas envolvem a responsabilização política ao mais alto nível. A história recordará quem banalizou o que não deve ser banalizado.

Investigador da Universidade de Lisboa

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