O sermão de Costa aos delegados

Na métrica dos aplausos é revelador que Pedro Nuno Santos a "dizer coisas de esquerda" e a imagem de Mário Centeno a chegar ao Eurogrupo com o cachecol da seleção nacional tenham tido resultados muito semelhantes. Entre o socialismo do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e o pragmatismo do ministro das Finanças, Costa ganhou uma segunda geringonça, caseira e de gestão aparentemente divertida. Pelo menos foi isso que o sorriso do líder foi sinalizando.

A quem se entreteve a escrever artigos sobre o posicionamento ideológico do PS, Costa respondeu logo na sexta-feira. "Estamos onde sempre estivemos." E onde fica isso ao certo? À esquerda, se o ponto de análise for a moção de Costa ao congresso ou a entrevista que o primeiro-ministro deu ao DN há 15 dias; ou onde quer que seja preciso se a questão for lidar com constrangimentos à governação vindos de Bruxelas ou de PCP e Bloco.

Congresso ordinário, com data marcada pelos tempos dos estatutos, da Batalha não poderia sair mais do que um exercício de lubrificação da máquina socialista. Manter as bases mobilizadas quando se está no governo sem grandes sobressaltos nos temas fundamentais, convenhamos, nem sequer exigia congresso, mas ele tinha de acontecer. Ainda não é o tempo de compromissos eleitorais. As promessas gastam-se e somando os dois discursos de Costa o que sobra de útil é a evangelização dos delegados a ano e meio das legislativas. "Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura" (Marcos 16:15). Ide e falai da reposição de rendimentos, do défice e da dívida, de como o PS é de contas certas, de emprego e de amanhãs que cantam mais investimento público, e evitai conversas sobre incêndios (foi tema tabu na Batalha). Fátima, ali ao lado, teria sido sítio mais certeiro.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Crespo

E uma moção de censura à oposição?

Nos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.