Há um país à espera do PSD

Escrevo numa altura em que ainda não há resultados das diretas do PSD. É o ideal para algumas considerações genéricas. O PSD chegou ao dia de ontem com dois candidatos que tiveram papéis ativos em alguns dos piores resultados eleitorais do partido - Santana enquanto líder e candidato a PM em 2005 contra Sócrates (28,77%) e Rui Rio vice-presidente de um PSD liderado por Manuela Ferreira Leite que, igualmente contra Sócrates, não passou dos 29,11%.

Isto diz-nos mais sobre o estado geral da política partidária em Portugal do que propriamente sobre o PSD - é verdadeiramente preocupante a falta de atração da atividade partidária e ainda mais preocupante o alheamento dos partidos em relação a este problema. Nos últimos anos pouco mais têm feito do que dar tiros nos pés e procurar destruir a relação com quem supostamente representam, como se viu no caso das alterações às leis que regulam o financiamento partidário.

Depois, o facto de não ter avançado nenhum dos candidatos a candidatos que foram marcando terreno do lado do passismo, ou mais corretamente do não-rioismo, vem dar razão à frase assassina de Miguel Relvas a meio da semana. Entre o leque de potenciais candidatos, de "gente que conta" no PSD, parece ter-se instalado a convicção de que o partido está a eleger um líder para dois anos. No fundo, procura-se uma figura de transição, que cumpra a travessia do deserto na oposição e que saia de palco sem fazer muito barulho depois das legislativas de 2019. Não sei se, em ganhando, Rui Rio vai cumprir esse papel à risca. Tenho sérias dúvidas.

Há duas formas de olhar para este processo de eleição do novo líder do PSD, e que valem para qualquer processo semelhante noutros partidos. A cínica, que diz que tudo está resolvido há muito, que a campanha de nada serviu e que a escolha será resultado do bom ou mau trabalho de meia dúzia de caciques nos principais distritos, valorizando factos como a inscrição de 20 mil militantes no último dia do prazo, certamente todos evangelizados pelos marcantes discursos de Rio ou Santana. E uma menos azeda, que vê o PSD à procura de um novo líder, de uma renovada capacidade de intervenção política, e que olha para os militantes de base como tendo uma margem de liberdade para lá das manobras da máquina.

Mesmo adotando este último ponto de vista, é uma pena que a longa campanha para estas diretas não tenha revelado ao país um mapa daquele que poderá ser o futuro próximo do PSD. Uma ideia, um projeto para o país ou, pelo menos, uma vaga noção sobre como fazer oposição eficaz ao PS e oferecer uma alternativa aos eleitores em 2019. Ganhe quem ganhar, é importante que este momento marque o início de um novo ciclo. Não é essencial - nem é previsível - que haja uma profunda viragem ideológica. Basta que se apaguem os sinais de amargura e que o partido procure sintonizar-se de novo com o país. Ainda ontem, depois de votar, Passos relembrou: "Ganhei as eleições e não pude governar." Enquanto o PSD insistir nesse azedumee em olhar para o país como quem anseia por uma tragédia, António Costa terá vida fácil.

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