Costa quer e vai lutar por uma maioria absoluta

Não é que seja uma surpresa, a vontade do primeiro-ministro passar a governar sem amarras à esquerda, mas a remodelação deste fim de semana - a terceira em três anos de executivo e a única que pode usar o nome com orgulho - é o mais claro sinal, até ver, de que o líder socialista quer entrar em 2019 com ganas de conquistar uma maioria absoluta.

A saída de Azeredo Lopes, um ministro da defesa que nunca o quis ser e que, no fundo, nunca se viu como tal, foi o pretexto ideal para preparar o governo para o ano eleitoral. E deixo aqui uma nota prévia. Os partidos políticos têm como objetivo último a conquista do poder. No essencial, trata-se de um conjunto de pessoas que considera que tem um melhor projeto para o país, para a comunidade onde estão inseridos, do que o conjunto ao lado. Logo, não será estranho ou particularmente criticável um partido ou um líder partidário fazer tudo o que legitimamente possa fazer para ganhar eleições. Eleitoralista, a remodelação? Talvez. Mas o que se esperava, que António Costa mantivesse fragilidades óbvias no governo até às eleições?

Outro ponto, lateral à remodelação. O OE2019 que será apresentado amanhã é um orçamento eleitoralista? Se entendermos que redistribuir riqueza é um sinal de eleitoralismo, sim, pode ser considerado como tal. Há diversos grupos e setores beneficiados e ambos os parceiros sacaram ganhos de causa das negociações das últimas semanas. Mas, olhando para os números que contam, sobretudo para o objetivo de défice 0,2% (na verdade, o alvo será um histórico zero), como é que se concilia a crítica ao "eleitoralismo" com o elogio à responsabilidade?

Regressando à remodelação, na economia resistia, quase desde a posse, uma espécie de morto-vivo. Assim de repente, lembrem-se lá do nome do ministro... Manuel Caldeira Cabral terá sido, a par de Azeredo Lopes, o mais grave erro de casting de António Costa em 2015. Manteve-se em funções porque, em tempos de crescimento, a pasta pouco ou nada exigia. Com Pedro Siza Vieira a passar-se para a Rua da Horta Seca o governo ganha alguém com experiência e mundo, que pode falar com associações e empresários na mesma língua. O peso político que traz consigo, de ser um dos homens de confiança do primeiro-ministro, só pode ajudar.

Na saúde, quem muito prometia em 2015 falhou. Não sei se por falta de peso na relação com as finanças ou na relação com sindicatos e administrações, mas Adalberto Campos Fernandes estava politicamente esgotado. Sendo a saúde uma área decisiva na perceção que os eleitores formam dos governos, entende-se a opção por Marta Temido. Casa currículo académico com experiência no SNS. Se conseguir retomar canais de diálogo e evitar greves, tem a pasta ganha.

A cultura era outro setor que pedia pacificação e ação. Luís Castro Mendes sai de cena depois de ter conseguido agitar, sem objetivo claro, um setor que pouco mais exige do que a gestão de egos e carências - de condições ou, no fundo, de subsídios. Se Graça Fonseca conseguir o mesmo que Marta Temido na saúde, pacificação e normalização, está cumprido o objetivo.

Na defesa, entra um diplomata com peso político. Já ouvimos hoje as corporações sublinhar que não discutem nomes, mas políticas. Nada de fundamental na forma como o governo pensa a defesa há de mudar entre Azeredo Lopes e Gomes Cravinho, mas os militares hão de saber reconhecer, pelo menos, o interesse e o respeito pela pasta, algo que Azeredo Lopes nunca teve.

É uma remodelação eleitoralista a par de um orçamento eleitoralista? Talvez, mas é preciso olhar o momento. Não creio que alguém esteja preparado para comparar o que conhecemos hoje e o que vai ser apresentado amanhã com o aumento de 2,9% que José Sócrates ofereceu aos funcionários públicos em 2009, numa altura em que o mundo colapsava à nossa volta.

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