Quando Greta fizer 30 anos

Quando Greta Thurnberg fizer trinta anos o mundo não terá cumprido as metas do Acordo de Paris nem atingido os objetivos do desenvolvimento sustentável. Apesar da enorme visibilidade mediática da jovem e do aproveitamento do seu protagonismo pelas grandes personalidades mundiais e ativistas das causas ambientais, os chefes de estado e de governo não estão a tomar nenhuma das medidas estruturais necessárias para que o rumo do mundo mude.

Dito isto, o anúncio pelo presidente chinês de que a erradicação da pobreza será a sua próxima prioridade pode, no que a um dos objetivos do desenvolvimento sustentável diz respeito, trazer grandes novidades. A China, que sempre foi um país atento às desigualdades e um dos que mais reduziu a pobreza desde a sua integração no sistema mundial de comércio, é ainda um dos que têm elevada incidência de pobreza. Se, como é credível no modo como funciona a China, este anúncio do Presidente Xi Jinping for levado a sério, haverá uma nova redução substancial da pobreza extrema no mundo e uma ainda maior concentração num número relativamente circunscrito de países, em que se incluem largas zonas de Africa. Mas esta é a única boa notícia recente em qualquer dos capítulos da luta por um mundo mais sustentável.

A dinâmica que se abriu com a liderança de Trump nos EUA baixou drasticamente a pressão sobre regimes semiautoritários e hostis às causas da sustentabilidade ambiental e da coesão social como, por exemplo, a Rússia ou a Turquia. Deu, também, um novo impulso aos defensores do prolongamento do uso dos combustíveis fósseis, que são pouco vocais mas muito atentos aos seus interesses, das potências do Médio Oriente aos empresários do setor nos EUA. Enfraqueceu ainda todos os organismos multilaterais. Os EUA continuam a ser os maiores financiadores do sistema multilateral, da ONU e das suas diversas agências e reduziram o seu financiamento em alguns casos de modo drástico; atuam através de parceiros para reduzir a possibilidade de consensos necessários, como vimos ainda recentemente com o comportamento do Brasil de Bolsonaro na cimeira do clima de Madrid; intervêm diretamente por ação ou omissão no enfraquecimento do sistema mundial de resolução de conflitos. A possível reeleição de Trump dará ao mundo uma liderança que encorajará o atraso de todas as batalhas das quais Greta se tornou símbolo para a opinião pública e para alguns líderes mundiais.

Nem a Europa, globalmente considerada, está a fazer o que é necessário para cumprir as metas de Paris e os objetivos do desenvolvimento sustentável. É o que, após ano, os relatórios confirmam. É certo que há razões para alguma esperança na promessa da nova Comissão Europeia de um Pacto Verde e que há países que assumiram a descarbonização da economia como meta, de que Portugal é exemplo.

Mas as medidas concretas são ainda escassas e mais simbólicas que efetivas. Se são visíveis avanços na gestão das grandes cidades e nos transportes públicos, há dificuldades enormes na taxação do carbono. A maior parte dos países têm medidas tímidas e há razões para suspeitar que não teriam apoio popular para uma taxação verdadeiramente dissuasora das emissões. As medidas na área industrial são um verdadeiro calcanhar de Aquiles e os países arrastam os pés porque os interesses serão sempre os interesses. E como se tudo o que ainda não foi feito não bastasse, o regresso ao caminho de salvar o mundo do futuro está, mesmo na Europa, ameaçado pelo populismo que engrossa as suas fileiras, em parte por causa da incapacidade dos partidos tradicionais encontrarem respostas para as aspirações sociais, entalados que estão entre objetivos orçamentais que agradam aos mercados mas não satisfazem as pessoas e incapazes que são de eliminar os efeitos sociais adversos da crise de 2009 passada uma década sobre ela.

Greta vai ficar adulta. Nessa altura a sua voz diluir-se-á na dos ambientalistas e perderá o apelo mediático. Pode até começar uma carreira política, mas não ganhará eleições. E se não aparecerem novos líderes que invertam a dinâmica que é previsível, os anos vinte do século XXI serão o caminho para que os desastres anunciados se concretizem, os oceanos subam, a seca se estenda, populações em massa tenham que mover-se pelos efeitos adversos das alterações climáticas e o mundo estará mais desigual, mais injusto e menos preparado para o futuro.

Estou pessimista? Sim, porque não se vê no horizonte que os povos elegessem hoje líderes com energia para mudar o que quer que seja nas grandes questões do mundo e - ou os cientistas estão errados - ou quando Greta tiver trinta anos teremos que lidar com gravíssimos problemas sociais e ecológicos, o que exigirá então soluções, que é melhor nem tentar antecipar agora.

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