Excelentíssimo senhor Presidente da República

Sabe V. Exa como é bastante mais fácil a vida de um comentador do que a de um chefe de Estado. Começa no facto de que o mais alto magistrado da nação deve ser, aos olhos dos comentadores, infalível. Na função de Presidente da República, que se quer amado pelo povo, importa estar junto do povo mas é igualmente necessário não abrir brechas que possam ser aproveitadas pelos comentadores para revelar a sua acutilância. Por exemplo, misturar alhos com bugalhos tem grande probabilidade de dar asneira e os comentadores adoram asneiras alheias.

Um comentador surpreende positivamente quando analisa a atualidade e revela informações que são desconhecidas de quem o ouve ou lê, já um Presidente da República não tem essa necessidade, porque é suposto estar sempre mais bem informado do que o comum dos cidadãos. O anterior comentador número 1 do país pode, aliás, ficar descansado que o lugar não ficou vago. Mudou o canal, mudou o protagonista, mas mantém-se ao domingo em horário nobre. O Dr. Marques Mendes está sempre muito bem informado, prepara com muito cuidado o seu trabalho e é seguido religiosamente pelos políticos e pelos outros comentadores.

A outra confusão que V. Exa deveria evitar é a de falar sobre temas que não têm nada a ver com a iniciativa que está a realizar. Falar sobre a dívida, o rating e a Fitch antes de ir almoçar a convite de uma família de parcos recursos é como pedir um bife tártaro num restaurante vegetariano. Mais ainda porque se pode entusiasmar e acabar a considerar que manter a nossa dívida no nível lixo é bom.

Este humilde comentador que agora lhe escreve tinha já alertado, na semana passada, para o facto de o estado de graça se começar a perder junto dos jornalistas e dos comentadores muito antes de o povo dar a sua sentença. Não deve ser fácil para si ter de estar a explicar-se a uns "miúdos" jornalistas sobre a alegada gafe que o levou a libertar uma informação que os jornalistas gostam de receber em papel timbrado, mas garanto-lhe que o povo ainda gosta menos de ver um Presidente da República assim confrontado. Veja que até houve, na profissão de informar, quem julgasse ter visto nessa sua antecipação uma espécie de crime de mercado.

V. Exa deverá ter em conta que os jornalistas e os comentadores são uma espécie de vampiros que, tomando o gosto pelo sangue, nunca deixam de perseguir a vítima. Um ano depois de ter chegado ao Palácio de Belém, a sua vida não ficou mais fácil. Bem que estranhei que os jornalistas já lhe andassem a perguntar porque apoia tanto o governo, pareceu-me que aberta a porta das críticas em formato de pergunta essa porta não seria fechada. Foi isso que aconteceu.

O que não estranhei foi que lhe andassem a perguntar, quase desde que iniciou o mandato, porque tinha tantas iniciativas. Percebe-se, quanto mais V. Exa trabalha mais nós temos de trabalhar. Ainda assim, senhor Presidente da República, com o nosso problema não precisa de se preocupar, o trabalho dá saúde e nós estamos cá para trabalhar. Mas não seria avisado diminuir a exposição, agora que o quarto poder abriu a caça às fragilidades do Presidente?

O país precisa de alguém que seja ouvido e respeitado pelo povo e pelas elites. Alguém que seja otimista e puxe pelo nosso amor-próprio, mas também alguém que seja realista e nos dê conta do muito que há a fazer e das imensas fragilidades que subsistem na economia nacional. Vivemos tempos muito imprevisíveis, de fronteiras que se fecham no medo e na ignorância, de economias que demoram eternidades a reagir aos bons impulsos mas que entram em alta velocidade quando alguma coisa corre mal. Não ganhamos nada em ser pessimistas e derrotistas, sempre a olhar apenas para o que está mal, mas temos muito a perder por viver nesta ilusão de que a crise do início da década já passou.

A austeridade não deve ser eterna mas não é, sabe V. Exa, uma coisa dos malandros da direita que querem impor sevícias a quem "andou a gastar acima das suas possibilidades". É, de facto, uma consequência do alto endividamento mas também do fraco crescimento económico. Nesta matéria, senhor Presidente da República, não houve grandes alterações. Portugal está mais ou menos na mesma, o mundo é que está mais perigoso.

Sem mais de momento, despeço-me com grande apreço pela ligação afetiva que estabeleceu com o povo de Portugal.

Porto-Lisboa, 5 de fevereiro, a bordo do Intercidades da CP

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