O fado dos remediados

Nos finais da década de 1980 e início da de 1990, o desígnio nacional era aproximar o país da média europeia. Tentava-se o crescimento à custa do betão. Estradas e mais estradas, pontes e tudo o que podia ser investimento em infraestruturas lá estava o então primeiro-ministro Cavaco Silva a secundar. 1133 quilómetros de autoestradas, de itinerários principais e complementares entre 1989 e 1993 dizem muito da época. As contrapartidas para o fundos comunitários que nos entraram pela porta, milhões por dia, e que financiaram grande parte da "revolução do betão" tiveram custos. Não há almoços grátis, muito menos vindos da Europa. Foram sacrificadas várias indústrias - sendo a da pesca uma das mais expressivas - e parte da produção agrícola nacional.

Nessa altura crescemos a um bom ritmo - e não, não é um elogio fácil à governação do ex-Presidente da República, que gozou de condições mais do que favoráveis para fazer esse brilharete - é constatar factos. Entre 1986 e 1992, o nível de vida dos portugueses subiu de 65% para 79% do nível de vida europeu e o produto interno bruto 5,6% ao ano.

Mas nada do que fizemos chegou para esse desígnio de estar no clube dos países mais ricos da União Europeia. Esfumou-se ao primeiro abalo de uma conjuntura internacional muito desfavorável a partir de 1991. De lá para cá andamos aos solavancos. O PIB subiu um bocadinho mais ou um bocadinho menos e até demos um valente tombo com em 2011 com o pedido de ajuda financeira.

Vamos crescer um bocadinho mais do que esperávamos neste ano, mas apenas ao nível dos 1,4%. A esquerda faz a festa. A direita, CDS e o PSD, diz que é "democracia simulada" e não há bases nesta política de esquerda para tirar Portugal da situação de remediadinho (mais a atirar para pobrezinho).

Não há betão, os fundos europeus são mais anémicos do que no tempo cavaquista, mas há turismo com fartura. Os hotéis nascem como cogumelos e garantem mais emprego. Até o Presidente da República diz que temos de acarinhar a galinha dos ovos de ouro. Esperemos então que nada mate o galináceo, pois era uma grande chatice, já que investimento do Estado nem vê-lo, para ajudar a dar vitamina D à economia.

Estamos em 2017, e todos os relatórios apontam para que o rendimento das famílias portuguesas continue muito aquém da maioria dos países europeus, tal como nos anos 1980. Fizemos a quadratura do círculo e continuamos presos ao fado dos remediados.

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