A crise do PSD (II): a implosão

Na semana passada, defendi duas ideias. Primeira, a crise do PSD é estrutural e não meramente conjuntural. O PSD enfrenta a dinâmica eleitoral mais complexa da sua longa história (piores resultados em autárquicas, europeias e legislativas). Segunda, perspetivam-se três cenários para o futuro do PSD: "spdização", "sorpasso" ou implosão. Penso que o cenário mais provável é a "spdização", independentemente da eleição do novo líder (não quer dizer que a inevitável decadência seja a ritmos similares com Rio ou Santana). Não acho o "sorpasso" ou a implosão cenários muito prováveis. Expliquei a improbabilidade do "sorpasso" na semana passada. Hoje, as minhas observações vão para a implosão.

Existem dois tipos de implosão que nos interessa considerar. A implosão do aparelho e a implosão das elites, isto é, digamos assim, uma cisão autárquica ou uma cisão parlamentar. Comecemos pela cisão ou implosão autárquica. Em certa medida, essa já aconteceu. Herdeiro da estrutura local da Ação Nacional Popular (em parceria com o CDS, claro, mas com muita vantagem para o PPD), o PSD nasceu um partido com forte implantação municipal. Com as coligações PSD/PS, em 1985, houve um primeiro assalto ao mundo comunista. Com o cavaquismo e o Estado laranja cheio de fundos para distribuir, o PSD engoliu o CDS autárquico (que nunca se recuperou do golpe). Com o fim do cavaquismo e a preponderância do PS no governo (de 1995 a 2019, em 24 anos, podemos contar apenas 7 anos para o PSD e em coligação com o CDS; nada que se possa comparar ao período de 1975 a 1995, 20 anos, onde podemos contar 15 anos para o PSD, oito deles com uma maioria absoluta), tudo começou a cair. E, no novo século, o PSD autárquico colapsou. Foi o partido mais atingido pelas candidaturas independentes. Nas eleições de 2013 e 2017 multiplicaram-se os concelhos com duas ou três listas oriundas do PSD. Porto e Oeiras, por exemplo, são governados por gente próxima do PSD, mas o PSD local desapareceu. E pior ainda. Depois da derrota em Sintra, em 2013, pela implosão do PSD local, tentaram novo "casamento", que claramente não convenceu (provavelmente, nestas últimas eleições, o candidato independente teria estado melhor sozinho do que acompanhado). Contudo, a implosão autárquica não tem grande efeito direto numas eleições legislativas. Prejudica o PSD na sua capacidade de mobilizar sindicatos de voto, evidentemente, mas não afeta diretamente, porque não há listas independentes: nem Moreira nem Isaltino vão fazer partidos concorrentes. Portanto, a implosão autárquica não é um verdadeiro cenário alternativo à "spdização", mas parte dela.

A implosão em que pensamos como alternativa a uma "spdização" seria uma cisão ao nível das suas elites. O PSD já teve uma e grave, em 1978. Quase metade da bancada zangou-se com Francisco Sá Carneiro e fez a ASDI ao lado. O resto sabemos - o PSD formou a Aliança Democrática, chegou ao governo nos primeiros dias de 1980 e lá ficou até 1995. Já a ASDI morreu entre a Frente Republicana Socialista, que Soares tirou da cartola (com a UEDS), e o PRD e o próprio PS. Nunca teve qualquer relevância depois de 1980. O seu líder, Sousa Franco, acabou ministro das Finanças de Guterres (com enormes responsabilidades no desastre orçamental que deixou aos seus sucessores). Portanto, uma cisão de elites tem já um precedente desastroso.

Comparemos com uma cisão de elites bem-sucedida: a UCD espanhola, de Adolfo Suárez. A cisão em 1981-82, não só acabou com o partido (que perdeu 95% da sua bancada em 1982) como acabou por reforçar três partidos distintos: a ala mais social-democrata foi para o PSOE, que teve uma enorme vitória eleitoral em 1982 e governou até 1996 (alguns UCD foram ministros com o PSOE), a enorme ala conservadora foi para a Alianza Popular (a AP herdou, genericamente, tal como em Portugal, as elites franquistas enquanto a UCD herdou o aparelho local), que deu lugar ao PP de Aznar em 1990 (existem ainda hoje quadros famosos do PP oriundos da UCD), e a ala mais centrista dispersou-se nalguns pequenos grupos regionalistas e no CDS (o novo partido de Suárez, que teve excelentes resultados eleitorais em 1986, mas desapareceu depois das eleições de 1989).

Porque implodiu definitivamente a UCD em 1981 e não o PSD em 1978? Para além das questões próprias (como a incapacidade da UCD lidar com as autonomias e o terrorismo basco) e das personalidades muito distintas dos seus protagonistas, existe uma enorme diferença. A UCD implodiu governando (com imensa impopularidade) e abrindo caminho a que um setor importante do partido se juntasse a um novo movimento em ascensão (PSOE). O PPD dividiu-se na oposição (a um governo PS muito impopular) e a caminho de ser parte de um projeto em ascensão (AD).

Não acredito na cisão parlamentar ou numa divisão elitista do PSD atual. A legislação parlamentar, partidária e eleitoral é ainda pior do que em 1978 (teriam de ser deputados independentes até ao fim da legislatura em que se dividissem). Os grupos parlamentares são hoje muito mais fiéis ao chefe do que em 1978 (porque os mecanismos de democracia interna são o que são). O PS e o CDS não são o PSOE e a AP, porque estão já pejados de boys e girls, não precisam de gente vinda do PSD. A comunicação social jamais seria benevolente para com uma cisão (basta ver a forma absolutamente vergonhosa como as televisões favoreceram os partidos contra as candidaturas independentes nas últimas autárquicas, ao ponto de estas não existirem nas tertúlias da noite eleitoral). Em resumo, uma cisão ou implosão exigiria um grau de coragem que não se encontra hoje facilmente em nenhuma personalidade da primeira linha do PSD.

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