Os argonautas em verso (pequena colagem de poemas sobre navegações e derivas)

Navegar é preciso, viver não é preciso", dizia Pessoa, cantou Caetano Veloso, "O barco, meu coração não aguenta/ Tanta tormenta, alegria".

Para lá de toda a retórica balofa da saga dos descobrimentos - com todo o seu lastro de exploração brutal e sanguinária dos povos escravizados, subjugados e exterminados, omisso na versão dos conquistadores - há uma outra poética dos descobrimentos marítimos e da descoberta dos outros povos, mais pessoal, essencial ou ideal, que perpassa pelos poemas de Sophia em Navegações:

"Depois surgiram as costas luminosas/ Silêncios e palmares frescor ardente/ E o brilho do visível frente a frente.

"Ali vimos a veemência do visível/ O aparecer total exposto inteiro/ E aquilo que nem ousáramos sonhar/ Era verdadeiro.

"Vi as águas os cabos vi as ilhas/ E o longo baloiçar dos coqueirais/ Vi lagunas azuis como safiras/ Rápidas aves furtivos animais/ Vi prodígios espantos maravilhas/ Vi homens nus bailando nos areais/ E ouvi o fundo som das suas falas/ Que nenhum de nós entendeu mais."

Ou doutra forma, doutras navegações, no pequeno conjunto de poemas de Al Berto intitulado Salsugem, como aquele que fala do marinheiro que "ficava a bordo encostado às amuradas/ horas a fio (...) com o coração em desordem/ os dedos explorando nervosos as ranhuras da madeira/ os pregos ferrugentos as cordas...

"... as luzes do cais revelavam-me corpos fugidios/ penumbras donde se escapavam ditos obscenos/ gemidos agudos sibilantes risos que despertavam em mim/ a vontade sempre urgente de partir..."
Ou outro sobre "como seriam felizes as mulheres/ à beira-mar debruçadas para a luz caiada/ remendando o pano das velas espiando o mar/ e a longitude do amor embarcado

"... dantes escrevia cartas/ punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua/ assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar/ se espantasse com a minha solidão... (anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. Mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

"... recomeço a bordar ou a dormir/ tanto faz/ sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade."

Passa também pela letra de Carlos Tê para a canção Nativa, com música de Rui Veloso:

"Deste-me conchas do mar/E um sorriso na boca/ E eu nada tinha pra dar/ Que se comparasse em troca /Dei-te os ferros da razão/ Dei-te o valor do metal/ O castigo e o perdão/ E a gramática do mal/Dei-te a dor no crucifixo/ Dei-te a cinza do prazer/Se não fosse eu era outro/ E antes eu do que um qualquer/ Dei-te a minha lingua mãe/Nas tardes desse vagar/O meu bem mais precioso/ Que eu tinha pra te dar/
E esse meu falar antigo/De branco fez-se mulato/Um dialecto criolo/Um viço novo no mato."

Acrescento à colagem, não sem descaramento, dois poemas meus.

O primeiro intitulado "Conhecimento do mar":

"Navegava./ Levava sonho e desconhecido, e a vontade do regresso, antecipada saudade./ Mares, luas e constelações devassavam-lhe o corpo e o esquecimento./ E navegava sempre./ Era um ponto no infinito do mar./ Por terra ansiava, desesperadamente / Agora é o mar que para sempre lhe habita o coração."

E para finalizar: "Circum-Navegação":

"Não é redonda a Terra/ Não se chega nunca ao sítio de onde se partiu./ São outros os lugares, outras as gentes,/ é outro o meu coração/ após o mar./ É que tudo é espaço,
sonho, irreal./ A verdade da Terra não é a esfera, / é a espiral."

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