O triunfo dos poucos

Não é grande coisa a fama dos porcos.

O porco é associado a imundície, sujidade e, precisamente - a porcaria. No ocidente não tem hipóteses, condenado que está pela etimologia e pela simbologia, que é sempre negativa e associada a "ignorância, gula, luxúria, egoísmo..."

Nem vale a pena falar do que ele representa para os muçulmanos.

Curiosamente para os chineses o ano do porco que agora se inicia é de bom augúrio: "O porco da Astrologia Chinesa pode ser o signo mais generoso e honrado do Zodíaco (...) Os porcos são compreensíveis e possuem boas maneiras e bom gosto impecáveis. Eles têm muito de perfeccionista neles, e os outros podem percebê-los como esnobes, mas isto é um equívoco. Porcos são simplesmente possuidores de uma natureza verdadeira de luxo, que se deleita na elegância e riqueza" (a citação é de um reputado horóscopo chinês numa versão brasileira que tirei ao acaso da internet).

Isto explica o que separa a China do Ocidente. É todo um tratado sobre o diferente entendimento do mundo e dá um novo sentido à expressão "dar pérolas a porcos".

Não é preciso acreditar em signos para perceber a questão. Eu, por exemplo, não acredito, o que é típico dos Balança com ascendente em Aquário.

Em resumo, quem acha que os porcos são uma porcaria está a ser burro.

George Orwell escreveu Animal Farm, livro publicado em 1945 e que em português tem o título "O Triunfo dos Porcos". O livro conta a história de uma quinta em que os animais, liderados pelos porcos, se revoltam contra os humanos e tomam o poder. Uma fação dos porcos acaba por expulsar a outra e estabelecer-se no poder pervertendo os princípios proclamados pela revolução. A alegoria ficou imortalizada na frase: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros".

O livro era na data da sua publicação uma sátira à União Soviética e ao seu regime comunista, mas hoje pode ser lido de forma ampla como uma sátira à perversão do poder.

O último relatório sobre desigualdades sociais e económicas apresentado no World Economic Forum em Davos revela que de março de 2017 a março de 2018 o número de bilionários aumentou e que nesse período o valor da fortuna das 26 pessoas mais ricas do mundo equivale à fortuna de 3,8 mil milhões de pessoas mais pobres, metade das pessoas do planeta. A desigualdade está a um nível absolutamente dramático e não para de aumentar. Estes números são apresentados ironicamente no local onde o convidado principal deste ano foi o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

Há um vídeo a circular que mostra um grupo de jovens num campo a preparar-se para uma corrida e um monitor que lhes pede, antes de dar o sinal de partida para darem dois passos em frente aqueles que têm famílias equilibradas, mais dois passos os que tiveram acesso a uma boa educação, mais dois os que nunca tiveram que se preocupar com a comida na mesa e mais uma série de frases do género. As frases ditas no vídeo são discutíveis, bem como a ideia de que a vida seja uma corrida, mas a metáfora é poderosa.

Todas as frases não têm a ver com ações que os jovens fizeram, nem decisões que tomaram. A verdade é que antes da corrida começar há um grupo que leva um grande avanço e outro grupo que parte muito atrás.

Na minha vida profissional tenho contactado muitos jovens que estão nos quadros de grandes empresas, empresas de novos negócios, com funções muito bem remuneradas, boas possibilidades de promoção, cargos de chefia... É muito fácil verificar, muitas vezes basta ver os nomes das pessoas nesses cargos, como eles vêm de famílias que circulam há décadas nesses mesmos lugares ou em lugares desse tipo.

Não que eles não possam ser competentes e também não quer dizer que não haja outros que lá chegaram. Mas não é habitual encontrar, por exemplo, um jovem do bairro da Jamaica nesses lugares. Não há um único.

Um dia destes fui almoçar a um destes restaurantes da moda muito caros e verifiquei como estava cheio desse tipo de jovens executivos. Um deles numa animada conversa referia-se ao restaurante como "a nossa cantina".

Noutra ocasião, um desses jovens, cheio de certezas sobre o mundo, comentava que hoje em Portugal só era pobre quem não queria trabalhar.

Se queremos perceber o que está a acontecer com as sociedades democráticas e liberais não nos devíamos distrair com as pedradas e as balas de borracha das aberturas dos telejornais. Devíamos começar por aqui. Na desigualdade é que começa a porcaria toda do mundo dos humanos. Os porcos que me desculpem a linguagem.

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