Inimigos privados e públicos

Encontrámo-nos na rua, ficámos frente a frente. Ele olhou para mim e eu olhei para ele e reconheci-o, mas não sabia donde. A cara era familiar, mas assim de repente não consegui situá-lo. Como ele ficou parado a olhar para mim como se me conhecesse bem, cumprimentei-o simpaticamente: "Estás bom? Tudo bem contigo?" Estendi-lhe a mão, ele estendeu a mão. Despedi-me com um: "Prazer em ver-te. Até à próxima." E seguimos cada um para seu lado.

Por causa da minha atividade profissional, conheço muita gente de muitas áreas diferentes e não era a primeira vez que me acontecia não reconhecer uma pessoa. Fui pelo caminho a pensar donde seria, vagamente irritado porque tinha a sensação de que era alguém que conhecia bem e a quem só dei um cumprimento de passagem. Por isso o ar dele algo admirado ou desapontado, uma indelicadeza minha, provavelmente. Quando me lembrasse ia perceber.

Mas nada, não me lembrava. Até que à noite desse dia, vinda não sei donde, a ficha de identificação caiu e fez bingo na minha memória: Era o C! Era o sacana do C! O traste, o escroque, o energúmeno... Por isso ele ficou admirado! Eu tinha acabado de estender a mão ao tipo que tinha passado meses a difamar-me, a escrever infâmias naquele pasquim contra mim, a intrigar, no Twitter, nas redes sociais todas... E eu não só lhe estendi a mão como fui simpático: "Prazer em ver-te"?!...

Por minutos o espírito do capitão Haddock desceu sobre mim e vociferei todo o tipo de palavrões até por fim desatar a rir sozinho.
A cara dele. Claro, o tipo estava à espera de tudo da minha parte menos daquilo. Será que pensou que eu estava a ser cínico, ou percebeu que simplesmente não me lembrava de quem ele era? Terá ficado ofendido? Ou terá pensado que eu era uma espécie de Gandhi pós-moderno? Ou simplesmente o episódio foi mais um pretexto para a sua sanha contra mim?

A verdade é que a situação acabou por me divertir. Nunca tinha pensado como é que seria se nos encontrássemos. O que me pôs a pensar na questão de como lidar com o inimigo. É verdade que há inimigos e inimigos. Uns são ameaçadores, outros são só ridículos.

Mas qual o protocolo a seguir socialmente com os inimigos? A partir de que ofensa é que deixo de lhes falar, os ignoro. E a partir de quando é que respondo ou retalio? Gandhi ou Alexandre, o Grande? Alexandre, o Gandhi (Como no sketch do Herman Enciclopédia)?

A forma de lidar com os outros, inimigos a sério ou inimigos de estimação, é um assunto que cada um deverá resolver ou não resolver à sua maneira.

Quando a questão não é pessoal e é uma questão social (de classe, de raça, de género, por exemplo) é totalmente diferente, deixa de ser anedótica, diz respeito a todos e leva-nos a um tema central da vida comunitária: como deve a sociedade lidar com os seus inimigos?

A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, livro de Karl Popper, de 1945, foi paradigmático na forma como sinalizou os perigos totalitários que ameaçavam (e ainda ameaçam) as sociedades democráticas liberais.

O tema é amplo e está na ordem do dia: como deve a democracia lidar com os fascismos e fundamentalismos diversos, com aqueles que a ameaçam?

Quer as ameaças exteriores, combatidas no campo da diplomacia ou da guerra, com as inúmeras variáveis de realpolitik pelo meio, quer as ameaças dentro de cada sociedade, os ovos da serpente beneficiam do paradoxo da tolerância democrática para gerarem monstros que visam acabar com essa mesma democracia que os tolera.

Não estou a falar da liberdade de expressão. O direito expresso na frase "Posso não concordar com a sua opinião mas defenderei até à morte o seu direito a expressá-la" nunca deve ser posto em causa. Ponto.

Quando eu e o Nuno Markl escrevemos para o Herman o sketch de A Última Ceia, face a toda a polémica desencadeada, lembro-me de ter dito numa entrevista que mais ofensivo do que tudo seria não podermos tê-lo escrito. Ter havido reações de pessoas ofendidas está certo, estão no seu direito; nós continuarmos a escrever textos que ofendam certas pessoas também está certo. É um bom sistema, como diz o Ricky Gervais.

A questão não é essa. A questão é uma sociedade democrática não combater aquilo que a ameaça, que nunca é a liberdade de expressão.

É a falta de informação, a falta de educação, a falta de memória.

É o entorpecimento estupidificante de cidadãos alienados por programas e redes de entretenimento - e informação que nivela toda a prática social num conforto voyeurista ilusório. A banalização do mal.

Este é o grande combate político do nosso tempo, que exige de todos uma militância política ampla e concreta: dotar a sociedade de mais inteligência para perceber e combater o que dentro dela surge e a ameaça (desde logo, na base de tudo, a desigualdade).

Para essa militância é indispensável a informação livre, factual e rigorosa. E a memória.

Cada um pode dar-se ao luxo de esquecer o seu inimigo pessoal. Não podemos esquecer aquele que é o inimigo de todos nós.

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