O bode expiatório

1. Multiplicam-se, no mundo, as más notícias sobre a extrema-direita. A última foi sobre a subida eleitoral da Alternativa pela Alemanha (AfD) nas eleições de domingo, que conseguiu 13% dos votos. A AfD é mais um partido que transformou o emigrante no bode expiatório dos problemas sociais, à semelhança do que tinham já feito os partidos de Farage, no Reino Unido, de Le Pen, em França, ou de Wilders, na Holanda. Em alguns casos essa estratégia permitiu já aos seus protagonistas a conquista do poder, como Trump, nos EUA, ou, bem mais perto de nós, os partidos de governo na Hungria e na Polónia.

2. Há quem tente justificar a estratégia de diabolização da emigração argumentando que o problema é real e que é necessário não deixar a extrema-direita a capitalizar sozinha o descontentamento popular. E assim, primeiro o centro-direita, com Sarkozy, depois o centro-esquerda, com Manuel Valls, fizeram o favor de tornar respeitáveis em França os temas de Le Pen. Esta, claro, agradeceu e subiu nos resultados eleitorais.

3. No entanto, havia todas as razões para desconfiar. A transformação do emigrante no bode expiatório de todos os males, como o foram no passado, por exemplo, os judeus, não é credível. Desde logo porque os autores das teses anti-imigração são os mesmos que declaram, sem vergonha, que os alemães deveriam orgulhar-se da atuação dos seus soldados nas duas guerras mundiais. Ou que os polícias alemães deveriam poder disparar sobre refugiados que tentassem atravessar a fronteira.

4. O medo dos imigrantes é o resultado da multiplicação de debates sobre a imigração com total insensibilidade aos factos. Na verdade, os factos não permitem sustentar a maioria dos medos que, entretanto, se generalizaram: medo da perda ou do roubo de empregos, o medo da pressão sobre o Estado social, o medo do aumento da insegurança ou de choques culturais. Nenhum destes medos pode ser confirmado por factos ou por qualquer análise séria dos impactos das migrações. Vale a pena, a este propósito, a consulta do blogue de Hein de Haas, professor nas universidades de Amesterdão, Maastricht e Oxford, e, em particular, do texto "Myths of migration: much of what we think we know is wrong".

5. O problema é sobretudo ideológico. E isso torna-se particularmente evidente na correlação negativa que existe entre o volume da imigração e o apoio eleitoral aos partidos anti-imigração: na Alemanha, a AfD teve as maiores votações relativas nos estados do Leste onde é menor a imigração; na Holanda, as piores votações de Wilders foram em Amesterdão e Roterdão, os grandes centros cosmopolitas de imigração; e no Reino Unido, o apoio ao brexit foi maior nas regiões de menos imigração e menor nas grandes cidades, em especial em Londres, uma das cidades do mundo com mais imigração.

6. Para nós, o sucesso do discurso anti-imigração em territórios de baixa imigração real é preocupante. Portugal é, na União Europeia, um dos países com menor percentagem de imigrantes residentes e com menor taxa de entrada de novos imigrantes. No entanto, dados do European Social Survey mostram que Portugal é um dos três países europeus em que há mais pessoas que se opõem a receber imigrantes, logo a seguir à Hungria e à República Checa, outros dois países de baixa imigração. Pelo contrário, é na Suécia e na Alemanha, dois dos países europeus com maiores taxas de imigração, que menos pessoas defendem a rejeição de imigrantes.

7. Devemos por isso preocupar-nos seriamente com as tentativas do PSD de abrir as portas a um discurso anti-imigração que apenas servirá para legitimar os discursos e as práticas da extrema-direita. Brandir a ameaça da pressão migratória, como o faz Passos Coelho, num país que não consegue atrair imigrantes em número significativo é algo que não serve para resolver qualquer problema real mas apenas para criar problemas novos. O PSD, ao acenar com o medo da imigração e ao apoiar a defesa do racismo e da pena de morte por André Ventura, está a colocar-se no campo dos facilitadores da extrema-direita, mais longe da sua matriz social-democrata.

Ideias feitas - Portugal é um país de imigração?

Portugal só é um país de imigração quando comparamos a situação atual com a do seu passado durante os anos de isolamento paroquial do Estado Novo. Quando nos comparamos, hoje, com os nossos parceiros da União Europeia, o retrato muda totalmente. Em 2015, o número de novos imigrantes entrados em Portugal representava apenas 0,3% da população residente, valor que compara com 1,9% na Áustria e na Alemanha, ou 1,7% na Irlanda. Apenas três países tinham então taxas de imigração anual inferiores às observadas para Portugal: República Checa, Croácia e Eslováquia. E note-se que cerca de metade dos imigrantes então entrados em Portugal eram portugueses que regressavam ao seu país.

Pressão migratória em Portugal? Só num discurso imune aos factos e com objetivos manipulatórios.

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