Manaus sem oxigénio é espelho do negacionismo bolsonarista

O coronavírus ataca de maneira agressiva os pulmões a causar uma grave inflamação que gera dificuldade na absorção do oxigénio, vital para a sobrevivência dos demais órgãos. Conforme a capacidade de captação de oxigénio diminui, o paciente faz mais força para encher os pulmões. Chega um momento em que esse esforço não resulta, o organismo acusa a baixa concentração de oxigénio e é quando se passa a usar outros músculos do abdómen na tarefa de encher mais ainda os pulmões, qualquer médico ou profissional de emergência reconhece o desconforto respiratório ao notar esse movimento torácico. Esse processo é exaustivo, requer muito esforço físico e o paciente, debilitado, perde a capacidade de respirar e forçar a entrada de ar em seus pulmões.

Enquanto isso acontece, o vírus é combatido pelo organismo, auxiliado por medicamentos, numa batalha que leva aproximadamente 15 dias. É um longo período. Ninguém aguentaria ficar esse tempo todo sem suporte respiratório. Daí a necessidade de se intubar o paciente. Com suas células recebendo o oxigénio corretamente, cabe ao sistema imunológico trabalhar na luta contra o vírus. Alguns não chegam a ser intubados, uma máscara de oxigénio resolve e equilibra a taxa. Os mais graves dependem de intubação. Li que a cada dez intubados com corona vírus em condições severas, apenas seis resistem. Imagine um parente seu internado e você ter de correr atrás de um cilindro de oxigénio para que ele sobreviva. Isso é Manaus, onde os dez intubados morrem por falta de oxigénio.

O povo indígena que deu nome à cidade de Manaus, os manaós - que já lá estavam muito antes de a aldeia tornar-se uma cidade, era conhecido por sua coragem e bravura. O sítio faz parte da Amazónia e a coroa portuguesa, para evitar que os holandeses ali aportassem, construíram a Fortaleza de São José da Barra, em 1669. Com o passar dos anos a extração da borracha gerou muita riqueza e Manaus transformou-se numa cidade com vida cultural intensa.

De seguida viveu altos e baixos até que surgiu a Zona Franca de Manaus, durante o regime militar, que atraiu empresas e riqueza para a região. Por isso ocupa a sexta posição no ranking das capitais de estados brasileiros por Produto Interno Bruto - PIB, e figura como o principal centro financeiro do norte do país.

Para quem não está acostumado com as dimensões continentais do Brasil, a distância entre São Paulo e Manaus equivale à distância entre Lisboa e Budapeste, na Hungria. É longe mesmo de avião.

Por ter-se tornado um polo económico importante, concentra pessoas de vários estados, inclusive de países vizinhos como Peru e Venezuela. Essa mistura gerou um povo divertido e caloroso, numa cidade húmida e quente o ano inteiro. O calor lembra aquele momento em que se retira o assado do forno. Isso é uma boa desculpa para o manauara praticar um dos seus maiores hábitos: reunir grupos de amigos e familiares e ir aos copos. É um costume tão arraigado que interferiu de maneira vital no controle da pandemia. Para complicar, 65% de seus eleitores votaram em Jair Bolsonaro e, como ele, se transformaram em negacionistas. Chamam Bolsonaro de "mito" e zombam das notícias que tenham origem em grandes veículos de comunicação - tática empreendida pelo grupo que assumiu o poder no Brasil: desacreditar a imprensa, que é o canal pelo qual o cidadão tem acesso ao verdadeiro estado da nação. No início da pandemia, com mortos a serem enterrados em valas coletivas devido ao grande volume, a população bolsonarista insistia em alegar que era uma farsa: "Estão a enterrar caixões com pedras. Um amigo que trabalha na autarquia me falou!", ouvi isso de uma amiga de lá. Curioso é que sempre há um amigo, ou o amigo do amigo, a atestar um delírio coletivo. "É tudo armação do (João) Doria" - governador de São Paulo e maior desafeto de Bolsonaro, que deve disputar com ele a presidência em 2022. Lembrando que São Paulo está na outra ponta do país.

Enquanto a contaminação estava a crescer de maneira ininterrupta e com total descontrolo, Bolsonaro posava para fotos a segurar uma caixa de cloroquina - medicamento conhecido pelo povo da região no combate à malária e cientificamente comprovado como ineficaz no combate à covid-19, a oferecer riscos cardíacos graves. "Todos aqui da região do Amazonas já tomaram cloroquina. Ela é boa mesmo.", disse minha amiga. A região do Amazonas, que compreende nove estados, é uma área endémica para a malária. Dá preguiça ter de explicar a alguém que um remédio bom para a sua dor de cabeça não cura a inflamação no seu dedo e pode trazer problemas adversos. Cada medicamento é desenvolvido para combater um caso específico e, embora conheçam a eficácia da cloroquina para a malária, ela não elimina o coronavírus, segundo a ciência. Mas eles zombam dela, são grosseiros no debate e dizem que "o povo de Manaus é guerreiro".

Em dezembro Manaus parecia um parque da Disney em pleno verão estadunidense. Pessoas a caminhar por ruas e mercados lotados, toda gente sem máscara, reuniões, festas de confraternização, bares, restaurantes em vida normal. Enquanto isso acontecia, aparecia no telejornal o presidente querido pelos manauaras a passar férias numa cidade do litoral de São Paulo. O presidente fez o barco em que estava se aproximar da praia, mergulhou e foi a nado ter com os banhistas. Dezenas deles, óbvio, sem máscaras, gritavam: "mito! mito! mito!". Fico a imaginar quantas daquelas pessoas que estavam na praia a aplaudi-lo, estão hoje numa vala aberta por trator. Vale lembrar que em São Paulo o quadro de descontrolo foi o mesmo durante o fim de ano e a situação está grave. Mas a cidade tem recursos e oxigénio. Isso abafa o caso.

Essa imagem de desdém ao combate à covid-19 se espalhou rapidamente, como queria o presidente, e muitos de seus eleitores de Manaus tiveram a certeza de que os média eram os verdadeiros culpados por uma pandemia fake news: "se o mito pode fazer isso, eu também posso". Nem 15 dias se passaram e a cidade se transformou num caos que causa espanto, tristeza, amargura e vergonha intensa. A cidade que votou em peso em Bolsonaro e desdenhou da covid-19, morria por asfixia. Lamento por aqueles que se protegeram, fizeram quarentena e foram contaminados por um parente ou amigo que não fez o mesmo e não os respeitou. Por esses eu tenho pena. Pelos outros que enfrentaram a pandemia como se fosse uma farsa, morreram como era suposto diante de suas escolhas.

O ministro da Saúde de Bolsonaro foi a Manaus dez dias antes da falta de oxigénio e recebeu relatórios de que o caos se aproximava. As pessoas morreriam sem ar. Qualquer ministro que se preze mobilizaria toda a força de seu ministério, teria levado o caso ao seu chefe, montado uma logística - o ministro Eduardo Pazuello é um general do exército especialista em logística - e evitado a tragédia. Não fez nada disso. Em sua visita a Manaus, pressionou a secretaria de saúde da cidade para que a cloroquina fosse ministrada como tratamento precoce nos infetados.

Dez dias depois as previsões se confirmaram e as pessoas não tinham oxigénio para respirar e isso obrigou que pacientes fossem transferidos a outros estados para sobreviver, para respirar. Manaus precisa de oxigénio, de lockdown e de vergonha na cara para assumir que sua população errou feio. Muitos ainda insistem no erro. Mas tudo fica difícil quando se tem um mito a dizer: "temos o problema do vírus, temos, ninguém nega isso aí. Devemos tomar os devidos cuidados com os mais velhos, as pessoas do grupo de risco. Agora, o emprego é essencial. Essa é uma realidade. O vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleques. É a vida, todos nós vamos morrer um dia".

Esse "dia" chegou mais cedo para uma malta do norte do país e deixou comprovado que contra a Covid-19, coragem e bravura são sinais de ignorância, desrespeito à própria vida e, sobretudo, ao próximo. Mas, como disse Bolsonaro, morreram como "homens, não como moleques".

Jornalista e designer brasileiro

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