São os negros, estúpido!

Com o Iowa, terra de brancos conservadores, e o New Hampshire, terra de brancos liberais, para trás, as primárias avançam para o Nevada e a Carolina do Sul. Ora, o primeiro é um dos seis estados com mais de 25% de hispânicos, enquanto o segundo é um dos (também) seis estados com mais de 25% de negros, pelo que se vai começar a discutir o peso do voto das minorias nas presidenciais, seja agora para escolher o candidato dos partidos, seja em novembro na hora de decidir quem sucederá a Barack Obama. E é de esperar que se fala sobretudo dos hispânicos, o grupo em maior crescimento nos Estados Unidos e que os republicanos se mostram incapazes de atrair mesmo quando levam a jogo Ted Cruz e Marco Rubio, de origem cubana, e ainda Jeb Bush, fluente em espanhol e casado com uma mexicana .

Mas talvez seja melhor olhar para os negros, historicamente a mais importante das minorias, mas hoje apenas 12% contra 18% de hispânicos, grupo que é mais cultural do que racial e que inclui americanos com origens mexicanas, porto-riquenhas, cubanas e de vários outros países latino-americanos. Mesmo tendo sido ultrapassados em número na população geral, os negros continuam a ser mais a votar do que os hispânicos e ainda por cima, com o fenómeno Obama, registaram nas presidenciais de 2008 e 2012 uma taxa de participação eleitoral pela primeira vez acima da dos brancos (66% contra 64%). E como há décadas que votam maciçamente no candidato democrata, em regra nove em cada dez, pode ser a sua mobilização a decidir se a Obama sucede Hillary Clinton (a favorita do seu campo político e muito popular entre os negros) ou mesmo Bernie Sanders, que tem um historial de luta pelos direitos cívicos. Por outro lado, em vez de tentarem atrair os hispânicos, talvez seja melhor os republicanos darem um pouco de atenção ao eleitorado negro.

Não por acaso, Donald Trump, que surge na linha da frente dos republicanos nas primárias e costuma pensar pela própria cabeça, tem afirmado que com ele na Casa Branca os negros vão dar-se bem, pois a sua prioridade é criar empregos e isso, diz, é o que a comunidade mais precisa. Talvez o magnata atacado pelas frases xenófobas contra os mexicanos e não só tenha percebido que estas presidenciais se podem decidir com base no "são os negros, estúpido!", adaptação da célebre tirada da campanha de Bill Clinton contra George Bush pai em 1992, com o "é a economia, estúpido!" a minimizar o grande currículo em política externa do vencedor da Guerra Fria e da Guerra do Golfo.

Olhando para as presidenciais de 2012, a importância imediata do voto negro é evidente. E até por comparação com o voto hispânico, que sem dúvida num futuro mais ou menos próximo será decisivo mas ainda não o é.

Vejamos. Imaginando o absurdo de o voto hispânico ter sido zero há quatro anos, o resultado seria que Obama perderia em voto popular a nível nacional mas mesmo assim ganharia a Casa Branca graças ao sistema de colégio eleitoral. Como é isso possível? Fácil, basta pensar que nos dois estados com maior peso os votos hispânicos não são decisivos, na Califórnia porque a vantagem democrata é esmagadora, no Texas porque a vantagem republicana também o é. E no sistema eleitoral americano quem ganha um estado, seja por um voto seja por um milhão de votos, leva todos os grandes eleitores desse estado, 55 no caso da Califórnia, sendo necessário um mínimo de 270 para um candidato ganhar a Casa Branca.

Já o voto negro desequilibrou em 2012 a balança a favor de Obama na Florida, no Ohio, no Michigan, na Pensilvânia e na Virginia, estados onde o candidato democrata deste ano ou ganha também ou a Casa Branca arrisca-se a ser uma miragem.

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