Os portugueses também descobriram o Canadá

Quem já reparou bem na rosa dos ventos que está junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, lembrar-se-á que além das datas em cima dos óbvios Brasil, África do Sul, Índia e Japão também se assinala a América do Norte, aliás, o atual Canadá. A data que se pode ler no lindíssimo chão de mármore - já agora, oferta dos sul-africanos nos 500 anos da morte do Infante D. Henrique - é "1500 Terra Nova". Presume-se que foi o ano em que Gaspar Corte-Real se aventurou nessas terras setentrionais, cujas águas próximas há muito eram frequentadas por pescadores portugueses na mira do bacalhau. Antes talvez lá tenham estado os navegadores Diogo de Teive, João Vaz Corte-Real (irmão de Gaspar) e João Fernandes Lavrador (que deixou um forte legado na geografia canadiana, o Labrador).

Fomos também pioneiros no século XV a chegar ao Canadá, o que não deve surpreender no povo que descobriu meio mundo. Mas, diga--se, o Canadá já tinha sido visitado pelos viquingues e talvez também por pescadores bascos, ainda bem antes de Cristóvão Colombo ter oficialmente descoberto a América, em 1492. O que relativiza o feito dos Corte-Real e afins quando comparado com os de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral ou Fernão de Magalhães (este último ao serviço da Espanha).

Primeiros ou não, o certo é que o Canadá, que hoje celebra 150 anos, tem uma longuíssima relação com o nosso país. Também o descobrimos, vale a pena insistir? Sim e não. Mas desde a aldeia portuguesa que o historiador H. V. Nelles, autor de uma recente crónica do Canadá, diz ter existido no século XVI em Cabo Bretão até Shawn Mendes, estrela pop com pai português, os laços são muitos. Gosto em especial de referir Pedro da Silva, primeiro carteiro do Canadá em 1705, ou o facto de os ministros das Finanças do Quebeque e do Ontário, as duas principais províncias, serem luso-canadianos. E ainda há semanas o DN contava a história de um açoriano que no século XIX se instalou na Colúmbia Britânica e se misturou com os índios, casando-se com duas irmãs lá.

Só fui uma vez ao Canadá, mas sei que é tudo menos uma réplica dos Estados Unidos, o grande vizinho do Sul e do Oeste (por causa do Alasca). E isso não tem que ver com Justin Trudeau, o primeiro-ministro, ser uma figura muito mais sorridente do que o presidente Donald Trump. Não se trata de diferenças fortuitas, mas sim de identidades nacionais distintas. O Canadá, com mistura das matrizes britânica e francesa, evoluiu de uma forma muito mais europeia do que os Estados Unidos, e isso reflete-se no sistema partidário, na taxa de sindicalização ou no serviço nacional de saúde. E não esquecer que, embora independente, a federação continua a ter como monarca Isabel II.

É uma nação rica, progressista, aberta ao mundo. Sim, os portugueses descobriram-na, pelo menos o meio milhão que se calcula lá viver hoje. Parabéns Canadá pelo século e meio. Grande país.

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