Mata-se na igreja de Fátima, Bangui

Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Bangui, capital da República Centro-Africana. Há missa e a igreja está cheia. Neste 1 de maio de 2018 são centenas os fiéis que escutam o padre Albert Toungoumale-Baba. De repente, tiros de metralhadora e granadas. Ao todo, 25 mortos, incluindo o sacerdote. Os atacantes pertencem a um dos grupos saídos do movimento Seleka, constituído por muçulmanos e que se notabilizou em 2013 por derrubar o presidente e lançar uma onda de violência contra os cristãos, 80% dos quase cinco milhões de centro-africanos.

Com estes dados é difícil não ver um conflito religioso na base dos problemas que enfrenta a República Centro-Africana, país que o atual governo, reconhecido pela comunidade internacional, controla em apenas um quinto da extensão (mais do que Espanha e Portugal juntos). E, de facto, depois da violência em 2013 dos Seleka surgiram os grupos anti-Balaka, milícias organizadas por cristãos e animistas para se protegerem mas que depressa se tornaram também autores de massacres a muçulmanos. Pior, a dado momento surgiram ataques que tomaram tanto cristãos como muçulmanos como alvo, mostrando que além do ódio religioso também motivações criminosas tinham entrado em jogo.

Para acabar com a guerra civil foram enviados capacetes-azuis. E ao serviço da ONU estão agora 12 mil homens armados, incluindo 180 portugueses. Há ainda portugueses ao serviço da missão de treino da UE, liderada pelo general HermínioMaio, parte do esforço de pacificação da ex-colónia francesa, independente desde 1960.

Há dois dias, os paraquedistas portugueses estiveram debaixo de fogo em Bambari, 300 km a nordeste da capital. Uma vez mais saíram em proteção da população, que continua a ser sujeita a ameaças das milícias, que exigem pagamento de uma espécie de taxa de guerra. Há hoje quase um milhão de deslocados e refugiados, mas mesmo assim o conflito arrisca tornar-se mais um dos muitos esquecidos.

Nos anos 1970 a República Centro-Africana também estava nos confins de África (ou no meio), mas despertava curiosidade. Jean-Bédel Bokassa cansara-se de ser presidente e tinha-se proclamado imperador. Ainda por cima tinha fama de canibal, tese alimentada pelo passado antropofágico e esclavagista da região, que só terminou com a chegada dos franceses no século XIX. França promoveu o derrube de Bokassa e talvez tenham sido os seus serviços secretos a espalhar a ideia do canibalismo.

Dos tempos de Bokassa restam ao país a localização geopolítica e os recursos minerais, do urânio ao ouro e aos diamantes. Também permanece o interesse especial de Paris, sempre atenta à Franceafrique. E há um regresso de Moscovo a África, três décadas depois do fim da URSS. Os russos assinaram um acordo militar com os governantes de Bangui para vender armas e treinar tropas, tudo com o OK da ONU.

Novo é o conflito centro-africano, mesmo não sendo exclusivamente religioso, surgir numa altura em que o extremismo islâmico ganha terreno em África. E que não olha a fronteiras herdadas da era colonial, como mostram os chadianos e sudaneses que combatem pelos Seleka.

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