Nada como um general para governar Israel?

A mãe de Benny Gantz e o pai de Yair Lapid chegaram a viver no mesmo edifício no gueto de Budapeste durante a Segunda Guerra Mundial. Hoje estes filhos de sobreviventes do Holocausto lideram a coligação Azul e Branca, favorita às eleições israelitas de 9 de abril. Ambos à vontade no centro político, e na defesa de um Estado judaico progressista, o general e o ex-apresentador de TV parecem dar-se tão bem que concordaram dividir o cargo de primeiro-ministro: dois anos e meio cada, começa Gantz.


A confiança exibida pelos líderes da Azul e Branca (cores da bandeira israelita), que inclui um terceiro partido liderado por Moshe Ya"alon, dissidente do Likud, é uma dor de cabeça para Benjamin Netanyahu. Quando convocou eleições, o líder do Likud, partido de direita, dava como certa a vitória que lhe garantiria bater o recorde de longevidade de um primeiro-ministro israelita, pertencente ao trabalhista David Ben-Gurion (que em 1948 proclamou o Estado que deu uma pátria aos judeus).

Contudo, uma série de acusações de corrupção vierem vulnerabilizar Netanyahu. E, mesmo que este fale de perseguição, as sondagens refletem o impacto dos problemas judiciais. Ao mesmo tempo, o currículo militar de Gantz vem pôr em causa a estratégia de Netanyahu de se apresentar como o garante da segurança de Israel, que tem resultado até agora porque os trabalhistas - tradicional oposição - são vistos como complacentes com os palestinianos e reféns de um processo de paz caduco.

Gantz, de 59 anos e chefe do Estado-Maior até 2015, é popular num eleitorado que no passado não hesitou em confiar o governo a militares medalhados, fossem de esquerda, como Yitzhak Rabin e Ehud Barack, ou de direita, como Ariel Sharon.

É que Israel, apesar de umas forças armadas sofisticadas e de um arsenal nuclear que desmente mas é dado como certo, continua a ter razões para temer inimigos vários. Além de grupos palestinianos como o Hamas, o Hezbollah libanês é uma ameaça real, assim como um Irão que insiste em ver o Estado judaico como um abcesso no Médio Oriente. E mesmo as relações melhoradas com vários países árabes não contrariam que os líderes destes são mais pragmáticos no que diz respeito a Israel do que as populações, manipuláveis.

Netanyahu, inesperadamente à defesa aos 69 anos, tem procurado tornar a química com Donald Trump também um trunfo, e ainda por cima o presidente americano, o tal que decidiu mudar a embaixada para Jerusalém, agora enviou pela primeira vez uma bateria antimíssil Thaad para Israel. Mas a aliança América-Israel está acima de lógicas partidárias, num e noutro país, e não há razão para se pensar que tal mudará. O Likud, ignorando o alto custo de vida como tema de campanha, tenta ainda fragilizar a coligação rival dizendo que esta governaria com apoio dos deputados árabes-israelitas porque os partidos sionistas de centro e de esquerda não chegam para a maioria de 61 necessária no Knesset.

O problema maior para o falcão Netanyahu é que a imagem de pomba não cola nada em Gantz. Nem em Ya"alon, que também foi chefe militar. E a Azul e Branco ainda conta com o independente Gabi Ashkenazi, antecessor de Gantz no Estado-Maior!

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