Luísas

Devo ser o único português que não tem sobre a Feira do Livro, essa capa sagrada, uma opinião ainda mais excitada do que sobre o Papa Francisco. E a causa é simples, livros arrumados por editoras é como um supermercado estar organizado por ordem alfabética (algodão, alguidares, alumínio)

Na terça-feira, no 360o da RTP 3 (programa em que estou todas as terças às dez da noite, em debate com a Ana Drago sob a batuta da Ana Lourenço), tive o meu momento Marcelo, que foi poder recomendar um livro no ar, em direto, para as pessoas lá em casa. A ideia de recomendar um livro veio a propósito da Feira do Livro, e seria um livro para as pessoas, as pessoas lá em casa, comprarem.

Não disse no programa, mas digo aqui, que devo ser o único português que não tem sobre a Feira do Livro, essa capa sagrada, uma opinião ainda mais excitada do que sobre o Papa Francisco. E a causa é simples, livros arrumados por editoras é como um supermercado estar organizado por ordem alfabética (algodão, alguidares, alumínio). Depois há o local que só podia ser pior se fosse numa encosta de Monsanto, e que apenas se entende como uma performance coletiva de nos transformar a todos em Luísas do Gedeão, afogueados, Parque acima, Parque abaixo. Mas mesmo assim tenho boas memórias, apesar do declive e de não se encontrar o que se procura, mas talvez por se encontrar o que não se procura e quem não se vê há muito tempo.

O livro que escolhi foi o Mataram a Cotovia, da Harper Lee, editado pela Relógio de Água, por três razões. A história é conhecida: numa aldeia do Alabama, durante a grande depressão, um jovem negro é acusado de violar uma jovem branca e é defendido pelo advogado Atticus Finch. Atticus é o pai de Scout, uma maria-rapaz com seis, sete, oito anos, e é pelos olhos dela que a história é contada. O livro é rico em leituras. Atticus vai guiando os filhos na crueza da realidade, sem mostrar nem esconder, guiando, enquadrando, dando a esperança possível, sempre esperança mas nunca ilusão, as camadas de proteção necessária, mas apenas a necessária couraça para a inevitabilidade do mal.

Atticus, que não podia ter melhor nome, educa os filhos na realidade integral que implica sempre verem sempre a perspetiva do outro mesmo daqueles que odeiem, que lhes querem mal, sobretudo desses (tout comprendre c"est tout pardonner?). Uma lição dois em um, que ajuda tanto a ganhar o céu como uma negociação. Perceber os outros não é fazer o que eles pensam nem o que esperam de nós, é precisamente perceber por que razão acham que não se deve falar com os negros da vila, ou por que é que uma miúda não pode usar calças, perceber tudo isso para fazer e lhes mostrar o contrário.

A outra ideia forte do livro, e que só por isso também vale a pena, é sobre a perseverança necessária para continuar no nosso caminho, um caminho que se dirige sempre uma maior liberdade, independentemente do resto. Além do exemplo de Atticus, a Senhora Dubose (uma dessas que tratam mal os Finches e cuja perspetiva Atticus obriga os filhos a ver) minada pelo cancro, que quer morrer livre da dependência de morfina e vai alargando os períodos entre doses.

No Mataram a Cotovia, o direito não faz justiça. Não faz justiça quando não protege Tom Robinson de uma acusação falsa, não faz justiça quando segrega. Mas esta divergência entre o que as leis dizem e o que deviam dizer é muito visível quando toda a comunidade deixa Bob Ewell patriarca de uma família branca, bêbado, caçar fora de época. Porque senão o fizerem, os filhos morrem à fome.

Mas a coisa mais deliciosa do Mataram a Cotovia é que Harper Lee, também ela uma maria-rapaz filha de um advogado que vive numa pequena vilória do Alabama, a coisa mais deliciosa é que Harper Lee publicou uma obra-prima instantânea em 1960 e nunca mais publicou nada, nem deu entrevistas nem cavaco ao mundo. Morreu no ano passado, e em 2015 foi publicado um segundo livro (Vai e Põe Uma Sentinela, Editorial Presença) envolto em alguma polémica e que é um primeiro draft do Mataram a Cotovia, mas tendo em conta o sucesso deste é como se não o tivesse feito.

Talvez não tenha querido escrever outro livro porque neste já tenha dito tudo o que queria, o que conseguia, o que sabia. E isso é também uma lição para todos os que se agitam, todos os dias, em querer fazer tudo e de tudo luísas do seu sucesso.

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