Spike Lee não será presidente do Sporting

O novo e admirável filme de Spike Lee está quase a chegar às salas. Mas são as eleições do Sporting que dominam a atualidade mediática - o que é que isso diz sobre a nossa vida cultural?

Eis um facto objetivo: as imagens direta ou indiretamente relacionadas com as eleições para a presidência do Sporting têm dominado o espaço público durante as últimas semanas. E uma pergunta suscitada por tal facto: o que é que tal dominação diz sobre a nossa vida cultural?

Sem querer magoar a sensibilidade de ninguém, devo esclarecer uma dúvida que pressinto em alguns leitores. Ou seja: o que é que as eleições do Sporting têm a ver com a nossa vida cultural?

Pois bem, é esse o meu ponto: hoje em dia, na sociedade portuguesa, não há nada mais cultural do que o mundo do futebol. Há mesmo um défice de genuínas reflexões sobre tal dimensão cultural. Isto porque importa não confundir a dinâmica cultural com a performance de bilheteira do filme A ou B, ou o reconhecimento internacional do escritor C ou D... A cultura não é uma coleção de marcas estéticas ou índices de mercado, mas sim um sistema de valores que marca toda a nossa vida coletiva.

Dito de outro modo: o valor cultural dominante na sociedade portuguesa é o futebol. Por ele passam elaboradas noções de justiça, consistência moral e definição identitária. Se se gastam horas, dias, semanas a avaliar um penalty bem ou mal marcado, isso é um acontecimento visceralmente cultural. Porquê? Porque isso privilegia umas imagens e não outras, favorece determinadas formas de pensar e não outras, enfim, transforma o futebol em padrão universal de medida de todas as relações humanas. Se isto não é a cultura, onde é que está a cultura?

Não é a vida do Sporting que está em causa. Aliás, estas considerações teriam a mesma pertinência (ou falta dela, se o leitor assim o entender) a propósito de uma infinidade de peripécias protagonizadas pelo FC Porto, o Benfica ou qualquer outro clube. Escusado será lembrar que também não se trata de escamotear o prazer de ver e admirar esse jogo fascinante que é o futebol.

Eis outro facto objetivo: no dia 6 de Setembro (ante-véspera das eleições do Sporting) surgirá nas salas portuguesas BlacKkKlansman, de Spike Lee, por certo um dos filmes mais importantes feitos neste século XXI nos EUA, quer o encaremos no plano específico da linguagem cinematográfica, quer consideremos as suas dramáticas propostas de reflexão sobre a América de Donald Trump [trailer aqui em baixo]. E uma outra pergunta: a expectativa mediática em torno desse filme tem alguma comparação com a presença das eleições do Sporting no nosso quotidiano?

Infelizmente, tornou-se difícil lidar com estas questões na sociedade portuguesa, quanto mais não seja porque há quem considere que colocá-las significa demonizar os jornalistas que trabalham sobre temas futebolísticos. No fundo, tal dificuldade é, também ela, cultural: na verdade, o que está em causa é apenas o gosto de nos abrirmos à pluralidade do mundo.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.