A última hipótese

Toda a humanidade acha que Deus deve estar muito ofendido. Mesmo a pequena minoria que não acredita na Sua existência percebe que, se Ele existe, tem fortes razões de queixa. Todos, mesmo optimistas e empenhados, vêem as terríveis nuvens que assombram o nosso tempo.

Destruímos a natureza, sentindo-se já gritantes as reacções do clima e as devastações da vida. Na própria humanidade, multiplicam-se as agressões à natureza, com promoção aberta do aborto, eutanásia, adultério, homossexualidade, perversão, clonagem e manipulação embrionária. Estes temas são extremamente controversos, como são as questões político-económicas da desigualdade, da injustiça e da marginalização, também crescentemente assustadoras. Por isso, há inúmeras razões de conflito, num tempo em que a guerra e violência adquiriram meios de destruição antes inimagináveis. Vivemos uma era crucial, onde o balanço global da humanidade, embora encontre muitas coisas boas, dignas e elevadas, permanece negativo e em queda.

A pergunta razoável, a única pergunta lógica perante este panorama é: que devo fazer acerca disso? Esta questão é urgente e implacável. Temos de evitar a falácia de achar que questões tão vastas apenas competem aos grandes do mundo. Todos somos responsáveis e cada um, naquilo que fez pessoalmente, será julgado pela sua consciência, antes de o ser pelo poder supremo. Somos parte da humanidade, parte do problema, e a nossa atitude é relevante aqui e agora.

Infelizmente, a resposta à pergunta exige escolher uma visão particular da realidade. Os parágrafos anteriores, descrevendo a questão, dirigiam-se a toda a gente, independentemente de convicções acerca do nosso destino. Mas qualquer solução só nasce de uma forma particular de olhar o mundo. Não é possível dar passos no sentido da resposta sem optar por uma convicção concreta.

Apesar disso, ainda é possível dizer a toda a humanidade que a única hipótese de esta reflexão ter sentido, de ainda ser possível fazer alguma coisa acerca das nossas desgraças, é Aquele a quem ofendemos ser paciente e compreensivo. Se não o for, está tudo perdido. Essa é precisamente a convicção de mais de metade da humanidade - cristãos, muçulmanos e judeus -, que acredita no Deus de Abraão. Se é assim, o poder supremo que a humanidade está a ofender como nunca antes é um Deus clemente e misericordioso, sempre pronto a perdoar e a compadecer-se. Na Bíblia e no Alcorão são muitas as histórias dos tempos antigos em que o povo ofendeu fortemente a Deus, foi castigado severamente, mas, mesmo assim, tratado de forma muito mais benevolente do que merecia, sendo no final perdoado por Alguém que prefere sempre a misericórdia ao sacrifício. Só nestas condições vale a pena contemplar a triste realidade do nosso tempo. Com um juiz impiedoso, como o ambiente, a Terra e a natureza, ou mesmo com um juiz justo e equilibrado, já estaríamos condenados.

Na próxima sexta-feira passa o centenário de um acontecimento que é provavelmente a última hipótese da humanidade. O milagre do Sol, que aconteceu na Cova da Iria a 13 de Outubro de 1917, chamou instantaneamente a atenção de todo o mundo para a "mensagem de Fátima". Nela, o aspecto central é tratar precisamente deste tema decisivo. A última coisa que a Aparição disse há cem anos foi: "Não ofendam mais a Nosso Senhor, que já está muito ofendido!" Isto é algo que, como vimos, toda a gente do planeta consegue entender. Todos, mesmo os que não acreditam n"Ele, sabem bem por que razão Deus deve estar ofendido.

A mensagem que Nossa Senhora revelou é composta por duas partes. A segunda, o segredo, descreve de forma arrepiante aquilo que depois viria a acontecer: as horríveis misérias do século XX, com todo o cortejo de violência, injustiça e sofrimento. Mas essa parte, que ficou oculta e só viria a ser revelada mais tarde, é a menos importante, até porque ficou datada no tempo. Aquilo que verdadeiramente interessa estava conhecido logo em 1917 e permanece hoje tão actual como então. Trata-se da primeira parte da mensagem de Fátima, a solução para esses males: rezar o terço todos os dias, fazer penitência pelos pecadores e consagrar-se ao Imaculado Coração de Maria.

Estas três coisas são incompreensíveis para grande parte da humanidade e desprezadas por muitos outros. Mas se esses desdenham o tratamento, não podem negar a doença e a dificuldade de a curar. Na verdade, os que recusam Fátima não têm melhores ideias para propor. Somos herdeiros de inúmeras doutrinas, sistemas, modelos, planos e programas para lidar com os males da humanidade, a qual, como vimos, está cada vez pior. Cem anos após o milagre, que nenhuma dessas alternativas apresentou, o mistério de Fátima permanece diante da humanidade como uma solução para os nossos males. Esta resposta, muito mais simples e barata do que as propostas que têm falhado, é das poucas que se mantêm credíveis. E precisamos com urgência de uma solução.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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