A crise que abala o mundo

No centenário da Revolução de Outubro, a crise da esquerda é dos maiores problemas mundiais. Aquela que foi uma força civilizacional decisiva nos últimos séculos encontra--se há décadas sem respostas originais ou plausíveis. Hoje, perante problemas tão ou mais graves do que em 1917, quando sobe a irritação global contra o sistema, a incapacidade da esquerda é mais dramática do que nunca. Faltam alternativas razoáveis, propostas convincentes, acima de tudo, sonhos empolgantes.

A origem da decadência é o sucesso. Em 1917 o movimento propunha uma finalidade nobre, a sociedade sem classes, e meios eficazes, revolução e ditadura do proletariado. Os 75 anos da URSS, caindo, primeiro no genocídio, depois na tirania, finalmente na podridão, invalidaram o modelo e arrastaram a esquerda numa perda de orientação e credibilidade. Para sobreviver, as forças moderadas viram-se forçadas à via reformista, colaborando com o capitalismo e esbracejando para exaltar os pequenos detalhes que ainda a distinguiam da odiada direita.

Claro que a esquerda tem excelentes pessoas e ideias, mas a crise tem quatro faces: esquerda utópica, esquerda estatista, esquerda demagógica e esquerda funcional. A situação portuguesa, que hoje como há cem anos é das mais próximas do bolchevismo, mostra bem essas variantes.

O tipo mais antigo é aquele que Marx criticou nos "socialistas utópicos". Ele persiste, irrealista como sempre, sobretudo em autarcas. Protótipo nacional do género é Fernando Medina, que tem sacrificado a pobre cidade de Lisboa a ilusões pseudoecológicas. Alheio à realidade e ao bem-estar dos cidadãos, arruína o trânsito e as finanças da capital numa profusão de ciclovias e estacionamento para híbridos, que se mantêm mais desertos do que as autoestradas de Sócrates. Nem o fiasco evidente dos primeiros exercícios chegou para desincentivar o projecto. Não interessa a cidade e a vida das pessoas, mas apenas o cumprimento do modelo abstracto, que dará resultados num futuro indefinido. Até lá, o sucesso mede-se por obra feita e dinheiro gasto, independentemente da comodidade dos munícipes.

O segundo tipo, o mais virulento, é a esquerda do monstruoso aparelho burocrático. Dominada pelo dogma de que só o público é bom, confia tudo ao poder redentor dos funcionários. Caricatura local é Tiago Brandão Rodrigues, o ministro que em poucos meses gerou o maior estrago na educação da democracia portuguesa. Primeiro com o ataque aos contratos de associação, agora com o fim do Vale Educação, mostra olímpico desinteresse pelo benefício das crianças e qualidade do ensino. Toda a acção dirige-se em exclusividade à corporação do sector, sem sequer se preocupar em ensaiar razões e argumentos, fiado exclusivamente no axioma estalinista. Infelizmente, como "a revolução devora os seus filhos", até este fiel ministro terá em breve uma greve nacional da ingrata Fenprof, que quanto mais tem, mais quer. Isto basta para provar a crise da esquerda.

O terceiro elemento é dos demagogos que, habituados à oposição, fazem propostas mirabolantes sem estudar consequências. Catarina Martins assegurou durante anos ao país que a solução nacional dependia da reestruturação da dívida pública, prejudicando credores para aliviar portugueses. Logo que chegou ao poder esqueceu convenientemente a ideia, pois todos os meses precisa de novos empréstimos dos tais credores, grande parte dos quais portugueses. Jerónimo de Sousa está agora em situação parecida, com a exigência do "salário mínimo de 600 euros". Com a produtividade a cair há um ano e meio, a sugestão prejudicaria muitos dos trabalhadores que diz defender. Tal como a demagogia do Bloco, não constitui política consciente e responsável e será igualmente esquecida, mas não sem antes fazer muito estrago.

O quarto, e mais influente perfil da esquerda do século XXI, é aquele que tem de lidar com os terríveis problemas reais, mantendo a patine revolucionária. Mário Centeno e a sua desfilada em direcção ao equilíbrio orçamental é exemplo eloquente da espécie. O propósito é indispensável, mas a sua consecução sustentada exigiria uma reforma do aparelho estatal, algo insuportável para a esquerda que o apoia. Obrigado a favorecer as corporações instaladas e incapaz se subir muito mais os impostos sobre a economia, o ministro só consegue reduzir o desequilíbrio à custa das verbas operacionais. Sob designações variadas, como "exercício de revisão da despesa", "congelamento nominal do consumo intermédio", "contenção da outra despesa corrente" e, sobretudo, pelas famigeradas cativações, Centeno vai transformando os serviços públicos em conchas ocas e inoperantes, cheias de funcionários, mas incapazes de actuar. Esta crise da esquerda manifesta-se em inúmeras dimensões e já incinerou Portugal neste Verão.

Cem anos após "os dez dias que abalaram o mundo", a Esquerda passa por um dos momentos mais tristes da sua notável história. Todo o mundo sofre com isso.

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