O fígado presidencial

Na prática, entre 28 de outubro de 2018 e 1 de janeiro de 2019, a presidência do Brasil foi transferida do Palácio do Planalto, em Brasília, para o condomínio Vivendas da Barra, na zona sul do Rio de Janeiro.

Como Jair Bolsonaro, já eleito mas ainda não empossado, convalescia da facada no abdómen em casa, foi lá que os ministros convidados se dirigiram, foi lá que as linhas mestras do novo governo se traçaram, foi lá que as primeiras comunicações ao país se realizaram.

O quarto do eleito tornou-se gabinete presidencial. A cozinha transformou-se em sala de imprensa. E a entrada do condomínio, onde as televisões montaram estúdios, entrou nas casas do telespectadores dias a fio por cerca de três meses - voltariam a entrar mais tarde porque o assassino material de Marielle Franco também mora lá, mas essa é outra conversa.

Aqueles dias foram, portanto, uma misturada entre público - os primeiros passos do novo governo da nação - e privado - a casa particular da família de Jair Bolsonaro - sem precedentes.

Talvez por isso essa confusão entre público e privado, mesmo tão conhecida dos brasileiros por força de anos (séculos?) de corrupção, tenha atingido sob Bolsonaro um outro patamar.

O presidente vem governando os brasileiros, todos eles, de acordo com as suas paixões, as suas fantasias, as suas manias, os seus delírios, os seus traumas muito pessoais.

Exemplos.

"Eu não gosto de ser multado no trânsito." Declarou então guerra aos radares e às lombas eletrónicas para devolver aos brasileiros "o prazer de dirigir". Depois de sete anos de queda, em 2019 as mortes em autoestradas federais voltou a subir.

"Eu gosto de pesca." Multado em 2012 por um fiscal do instituto de proteção ambiental Ibama por estar a pescar numa estação ecológica, tratou de o despedir semanas depois de eleito. Mais: revogou a proibição da pesca naquela estação ecológica e dizimou o Ibama.

"Eu gosto de tiro." Vai daí, de polegar e indicador esticados a fazer o gesto da pistolinha, assinou decreto a permitir que atiradores possam circular de arma carregada pelas ruas sem a obrigatoriedade de as carregar apenas nos clubes de tiro.

"Eu tenho uma fixação por homossexuais." Promoveu então campanha em que se incentivava os viajantes a manter sexo com mulheres brasileiras para apagar a fama do Brasil de paraíso do turismo gay.

Outros exemplos.

"Tenho três filhos políticos, vou mantê-los no círculo do poder, nomeá-los embaixadores se necessário for, além de empregar amigos de infância deles e de contratar batalhões de parentes para me assessorar."

"Não gosto deste tipo de filmes, o órgão público de apoio a produções vai ignorá-los."

"Não gosto daquele jornal e daquela emissora, o meu governo vai vender publicidade ao concorrente, liderado por um bispo evangélico meu eleitor."

"Tenho direito a indulto de Natal? Vou usá-lo só para polícias, também meus eleitores, condenados por excessos culposos."

E é neste contexto que já nem surpreendeu o uso, nesta semana, dos canais oficiais da Secretaria da Comunicação da Presidência - chefiada, muito a propósito, por um cidadão investigado pela polícia federal por fazer negócios publicitários em nome do governo com clientes seus de uma empresa do ramo - para atacar a cineasta brasileira candidata ao Óscar.

Petra Costa criticou Bolsonaro em périplo de promoção do documentário Democracia em Vertigem, considerado enviesado à esquerda mas, ainda assim, em boa posição para dar a primeira estatueta ao gigante sul-americano.

Em resposta, a máquina do governo chamou-a, entre outras coisas, de "militante anti-Brasil", violando, pela enésima vez, o artigo 37.º da Constituição, que fala em "impessoalidade da administração pública".

Bolsonaro já mora no Palácio do Alvorada e despacha no Planalto há mais de um ano. Mas o país continua a ser gerido a partir do condomínio Vivendas da Barra. E a partir do fígado presidencial.

Correspondente em São Paulo

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