O alfaiate de Bolsonaro

À hora a que João Doria, o ambicioso governador de São Paulo, apresentava o plano de vacinação do seu estado já para 25 de janeiro - dois meses antes do resto do Brasil e em simultâneo com o mundo civilizado -, Jair Bolsonaro estava com os ministros Onyx Lorenzoni, Marcelo Álvaro Antônio e Ernesto Araújo num "momento histórico". Já lá vamos ao "momento histórico".

Comecemos por apresentar os três ministros. Segundo Ernesto Araújo, titular das Relações Exteriores, a esquerda defende a legalização do aborto porque não quer que nenhum bebé nasça, "nem mesmo o Menino Jesus".

O isolamento social na pandemia é como os campos de concentração nazis, comparou. Por falar nisso, refletiu ainda Araújo, fascismo e nazismo são fenómenos de esquerda.

A globalização - ou globalismo, como a extrema-direita prefere chama-la - é uma tática anticristã, uma conspiração marxista. Marxista é também a teoria do aquecimento global porque visa o controlo do Estado sobre a economia.

No mundo de Ernesto, o Ocidente só pode ser salvo por uma divindade - e essa divindade, ele revela, é Donald Trump.

Esta linha de pensamento, como seria de esperar, mereceu aplausos de Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo, e chamou a atenção de Eduardo Bolsonaro, ex-futuro embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

E ambos decidiram que seria importante o chefe da diplomacia do maior país sul-americano chamar-se Ernesto.

Hoje ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio era um deputado meio anónimo até ganhar o "título" de único parlamentar a subir ao palanque duas vezes no dia do impeachment de Dilma Rousseff.

Na primeira, dedicou o voto pela queda da presidente à filha Amanda Dias, à outra filha, Ana Clara, à esposa, Janaína, à mãe, à região belo-horizontina do Barreiro, em particular, a toda a Belo Horizonte, em geral, a cada uma das famílias brasileiras, às manifestações de rua, ao processo jurídico e à governabilidade. Não esqueceu nada nem ninguém. Aparentemente.

Minutos depois, para desespero do protocolo da Câmara e gargalhada geral, interrompeu a sessão, subiu ao palanque e dedicou o voto também a Paulo Henrique, o filho que lhe escapara na primeira intervenção.

Já ministro, foi denunciado pelo Ministério Público pelos crimes de falsidade ideológica, organização criminosa, apropriação indébita eleitoral e omissão de prestação de contas num caso de desvio, para os cofres de empresas de membros do seu gabinete, de dinheiro público destinado a candidaturas femininas do partido de Bolsonaro.

É um dos principais casos de corrupção num governo que se gaba, para delírio do seu gado amestrado, de não ter casos de corrupção.

(Horas depois de encerrado este texto, Antônio foi demitido do governo; não por causa do esquema corrupto mas por ter discutido no grupo de Whatsapp do governo com um colega).

Aliás, seis dos ministros escolhidos por Bolsonaro tinham problemas com a justiça já antes de assumirem os cargos, entre os quais, Onyx Lorenzoni.

Deputado do baixo clero toda a vida, Lorenzoni recebeu doações ilegais de uma construtora enquanto parlamentar. Já ministro da Cidadania, contratou o professor de inglês para um cargo fora das suas habilitações. Destacou-se ainda, como ministro da Casa Civil, por promover caça a todos os funcionários públicos com ligação ao PT para, afinal, concluir que depois de os exonerar o Ministério ficava inoperacional. Fã de armas, disse, sem se rir, que um liquidificador é tão perigoso para uma criança como uma pistola.

Ora, Araújo, Antônio e Onyx, apenas três dos tantos ministros tragicómicos do atual Governo, encontraram um tempinho nas suas agendas para participar, ao lado do chefe Bolsonaro, na cerimónia oficial da exposição das roupas usadas pelo presidente e pela primeira-dama na tomada de posse de 1 de janeiro de 2019.

O tal "momento histórico", de acordo com classificação de Michelle Bolsonaro.

Enquanto isso, Doria, que só pensa na campanha para o Planalto de 2022, dizia à imprensa que, caso a agência reguladora da saúde, dependente de Bolsonaro, atrapalhe o plano paulista de vacinação, cada morte a partir de 26 de janeiro é culpa do presidente.

Que a essa hora dizia, ao lado dos sorridentes Araújo, Antônio e Onyx, umas graças sobre o seu alfaiate.

Correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG