Lula e Bolsonaro vistos de fora

Uma pergunta recorrente com que os correspondentes estrangeiros no Brasil têm de lidar: porque é que Lula da Silva, um presidiário, é analisado com tanta benevolência nos grandes jornais internacionais e pela generalidade dos cidadãos estrangeiros e Jair Bolsonaro, o presidente, escrutinado com tanta severidade?

Para começar, porque Lula é uma espécie de encarnação do "sonho brasileiro": miserável na infância e trabalhador braçal até à vida adulta, consegue como sindicalista dobrar uma ditadura e como político chegar à presidência de um dos mais desiguais países do planeta - uma vez eleito, de acordo, percebendo que para governar precisava de maiorias, uniu-se ao que de mais corrupto existe na política brasileira com as trágicas consequências, em forma de Mensalão e de Petrolão, daí decorrentes.

Depois, porque no seu consulado cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria diretamente para a sociedade de consumo, fazendo a roda da economia brasileira girar, como provam o crescimento do PIB, o dólar a menos de três reais e os mais de 80% de aprovação com que saiu do Planalto - beneficiou-se, tudo bem, do boom das commodities e deixou uma conta alta para Dilma Rousseff pagar.

Por outro lado, porque foi o presidente brasileiro que mais combateu a desigualdade, o eterno flagelo do país, raiz da corrupção, da criminalidade e de todos os outros males, criando dezenas de programas sociais de estímulo à educação para todos, à saúde para todos e de combate à pobreza considerados modelo pela ONU - parte deles, sim, começados na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

A seguir, porque, sendo um mestre do soft power, conseguiu atrair para o seu país o Mundial de Futebol de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, fazendo o mundo sentir que o Brasil, pela primeira vez, estava no centro de tudo - Mundial e Jogos, é verdade, resultaram numa orgia de dinheiro público mal gasto.

No fundo, porque, apesar dos pesares, Lula representa tudo aquilo que o mundo ama no Brasil: o poder da sua fabulosa diversidade, a tolerância às minorias, o respeito pelo meio ambiente e o sonho da igualdade de oportunidades. É revelador para quem vê de fora, entretanto, que a respeitada academia brasileira esteja, quase toda, com Lula. E que o essencial da classe artística também, incluindo os seus representantes mais amados e aclamados nos principais palcos do globo, como Chico, Caetano, Gil e outros.

Já Bolsonaro, pelo contrário, encarna o Brasil mais assustador aos olhos do estrangeiro: é adepto do slogan bandido bom é bandido morto, que na prática se traduz por polícias (e milícias) a exterminarem, sobretudo, negros e pobres, defende que as minorias se curvem perante as maiorias e os muitos vulneráveis perante os poucos poderosos e é o preferido daqueles diabólicos bispos evangélicos que leem e releem o Novo Testamento e não entendem uma palavra.

Também tem artistas do seu lado mas quase todos de segmentos que não despertam admiração mas sim escárnio lá fora, como o das simplórias duplas sertanejas, por exemplo, com todo o respeito pela nobre indústria em causa e pelos milhões de fãs do género. E em vez de académicos, o essencial do seu grupo de apoiantes são pessoas que acordaram para a política depois dos grandes protestos de junho de 2013, que se informam por memes e fakes de Whatsapp e anunciam boicotes à leitura dos jornais tradicionais (como se alguma vez os tivessem lido). Gente que tem imensas certezas absolutas sobre esquerda e direita, mesmo que os maiores cientistas e historiadores e filósofos da humanidade, por mais que estudem essa dicotomia desde a revolução francesa, continuem cheios de dúvidas.

Para concluir a resposta, porque Lula é presidiário mas um dia foi presidente. Já Bolsonaro é presidente mas um dia, nunca se sabe, pode vir a ser presidiário. O mundo, para espanto dos cada vez mais bolsonaristas terraplanistas, dá muitas voltas.

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