O meu Brasil: a experiência de um português em Ribeirão Preto

A experiência de viver num país que não é um país mas uma experiência. Do tamanho colossal, por comparação com o do pequenino Portugal, à juventude da sua história, por comparação com a do velhinho Portugal. Passando por essa formidável capacidade dos brasileiros de encararem com (muita) alegria todas as (muitas) tristezas que enfrentam no dia-a-dia.

Um português partilhar a sua experiência no Brasil é, antes de mais, tarefa pouco original, já que logo em abril de 1500 Pero Vaz de Caminha teve a mesma ideia. E ingrata, porque Eça de Queirós, mesmo sem nunca ter cruzado o Atlântico, resumiu tudo na frase "o brasileiro é o português dilatado pelo calor".

Por outro lado, não há apenas um Brasil e sim dezenas deles, da Amazónia à Pampa, do Cerrado à Caatinga, da Mata Atlântica ao Pantanal. E há o norte, há o sul, há o nordeste, há o centro-oeste e há o sudeste. E o litoral e o interior. E há ainda a divisão social, que vai do 1% de multimilionários que viajam de helicóptero aos 50,3% da população que não tem acesso a esgoto. Com muitas classes médias pelo meio.

Esta é a experiência de um português de classe média da cidade de Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo, que é o mais populoso e rico do país e o coração da região sudeste, que se situa no bioma Mata Atlântica. Este é o meu Brasil.

Além de muitos brasis, há ainda muitos "ser português no Brasil". No Rio de Janeiro, onde os "esses" soam como alfacinhas, em que a cada esquina se come um bacalhau à Gomes de Sá, onde a comunidade imigrante, de tão grande, não só fundou o gigante Vasco da Gama como ainda deu Zico, filho de beirões, ao rival Flamengo, e em que até as pedras da calçada de Copacabana são lusitanas, um português passa despercebido. No tal interior de São Paulo, onde os "erres" adquirem som irrepetível e em que metade da população tem nome de origem italiana, como "Bolsonaro", ou árabe, como "Haddad", pelo contrário, um português é um animal exótico.

E para me adaptar ao meu novo (e querido) país, ou pedaço de país, primeiro tive de rever noções básicas de tempo e espaço. Que me lembre, nunca morei em Lisboa em nenhum prédio com menos de 50 anos - aliás, quando morei num de 50 anos achava-o, eu e quem o visitasse, um "prédio novo". Aqui, moro num de 15 anos que, afirmam os locais, "para tão antigo até que está bem conservado". Causo espanto quando digo que na minha cidade de origem há um bairro nascido no final do século XIX chamado Avenidas Novas. Da mesma forma que me surpreendo com as casas comerciais brasileiras que se gabam da sua antiguidade com placas do tipo "since 2013". O "since", em vez do português "desde", resulta da veneração, talvez mais paulista do que brasileira, talvez mais rural do que urbana, pelos sacrossantos Estados Unidos.

Por outro lado, quando ainda morava na capital estadual São Paulo (mais tarde explico porque me mudei) precisei de fazer uma reportagem na academia do Corinthians, partindo do meu apartamento, na região da Avenida Paulista. Olhei o mapa do metrô e vi que bastava mudar de linha - nada de mais, seria como ir do Marquês de Pombal ao Estádio da Luz. Afinal, demorei hora e meia, só dentro da carruagem, e ainda precisei de apanhar um ônibus e um táxi para chegar ao destino - sim, a cidade de São Paulo estende-se de Lisboa a Leiria, afinal, o "Novo Mundo" cresceu sobretudo na era das quatro rodas, enquanto o "Velho Mundo" se moldou na era em que se andava a pé ou, no máximo, a cavalo. Noutra ocasião, fui desafiado por um jornal português a fazer uma reportagem em Fortaleza. "Podes lá dar um pulinho?". Ora, o pulinho em causa equivale a uma viagem Lisboa-Varsóvia - sim, no Brasil, às vezes esquecemo-nos, cabem duas Uniões Europeias.

No meu caso, por outro lado, a mudança de Portugal para o Brasil em 2011 confunde-se com outra viagem, muito mais decisiva: a de passar de "não pai" a "pai". Quando decidi com a minha mulher, brasileira, trocar o sossegadinho país europeu pelo agitadíssimo gigante sul-americano, trazíamos na bagagem não uma, mas duas passageiras clandestinas, sem o saber. Elas, as minhas filhas gémeas, revolucionaram-nos os planos - que eram viver, como manda a boa prática de um correspondente internacional, num centro noticioso do país, no caso São Paulo - e levaram-me para uma cidade mais "família" - a tal Ribeirão Preto, 350 quilómetros a norte da capital paulista.

E em vez da vertiginosa, vibrante e intensa São Paulo, eis-me numa cidade com 700 mil habitantes e conhecida - com exagero - como "Califórnia brasileira", por causa do sol permanente, da qualidade de vida e das muitas fortunas que o agronegócio gerou. Por aqui, é organizada a segunda maior feira de tecnologia agrícola do mundo, com cinco milhões de euros negociados a cada ano, e o maior rodeo da América Latina, com um milhão de visitantes, milhares de cavaleiros, cavalos e touros, e mais de cem concertos do ritmo local, o sertanejo.

Os apartamentos são menos caros do que na inflacionada Sampa e a cidade, com cinemas, teatros, livrarias, jornais, rádios e televisões próprios, está longe de ser um fim de mundo. Mais importante: tem dos melhores hospitais públicos da América do Sul, onde as minhas filhas nasceram há sete anos.

Com a saúde, no entanto, não se brinca. Nem com a educação. Nem com a segurança. Enquanto em Portugal os gastos com a proteção pessoal são irrisórios e a opção por escolas e hospitais públicos natural, no Brasil é indispensável contratar planos de saúde para os filhos, matriculá-los em colégios particulares e morar em prédios com porteiros 24 horas por dia, arame farpado elétrico e câmaras de vigilância. Por isso, por serem imprescindíveis, as escolas e médicos privados e os condomínios protegidos permitem-se ser caríssimos, asfixiando os orçamentos da classe média. E atirando, claro, a grande maioria da população, que não lhes tem acesso, para serviços quase terceiro-mundistas.

Como disse um dia Tom Jobim, "o Brasil não é para principiantes". Não é mesmo. É preciso quilometragem de vida para lidar com as mazelas, as injustiças e as desigualdades quotidianas. No entanto, o calor humano dos brasileiros atenua. É difícil, apesar de todos os pesares, encontrar um brasileiro triste. Encontrar um antipático, mais ainda.

Nos costumes do dia-a-dia, com menos peixe e menos vinho e mais carne e mais cerveja, a base alimentar é semelhante à portuguesa, a que se acrescentam pamonhas, tapiocas, paçocas e outras iguarias indígenas. Embora seja o país mais católico do planeta em número de fiéis, a religiosidade intensa do povo ainda abriga a segunda maior população de evangélicos do globo e o recorde mundial de seguidores do espiritismo. Além de devotos do candomblé, do umbanda, do santo daime e muitos mais.

Portugal e Brasil, entretanto, têm, como dizia Millôr Fernandes, "uma língua que os desune", o que me obriga a falar abrasileirado para me fazer entender porque, se eu domino o sotaque do país graças a referências tão diversas e remotas como João Gilberto, Sinhozinho Malta ou Paulinho Cascavel, o inverso, salvo pelo bizarro Roberto Leal, nunca se verificou.

Do ponto de vista profissional, para quem trabalha com notícias, o país é um tesouro. No dia em que escrevo este texto, houve um tiroteio no Rio, um protesto de índios yanomami no Roraima, a prisão de um governador no Paraná, ameaças de morte a uma artista na internet, 40 mil adeptos num treino de uma equipa de futebol de São Paulo, um juiz de Brasília a acusar um colega de aceitar dinheiro para soltar corruptos, uma cantora e uma humorista a trocarem insultos nas redes, relatos de chuvas inclementes num canto do país e de uma seca desumana noutro. Ah, e uma campanha eleitoral ardente pelo meio. Depois de anos a trabalhar num país onde, convenhamos, não acontece quase nada, e os assuntos e os protagonistas se repetem, viver em superavit noticioso é um bálsamo.

O Brasil é, pois, como canta Chico no Fado Tropical, "um imenso Portugal". E os brasileiros são portugueses dilatados, nas suas virtudes e nos seus defeitos, pelo calor. Assim, quase oito anos depois de chegar, sei que, como escreveu Pero Vaz de Caminha a Sua Alteza Dom Manuel I, "Deus não nos traria aqui se não fosse por uma causa justa".

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