A terra do não

Você, cidadão comum, ingénuo e desinformado, desconhece mas quem é fã de Jair Bolsonaro, de Olavo de Carvalho, o guru do presidente, e de outros pensadores sabe:

Não há desmatamento na Amazónia - o desmatamento na floresta que, segundo dados do sistema de fiscalização por satélite Deter, cresceu 33% entre agosto de 2019 e julho de 2020 em comparação com o mesmo período entre 2018 e 2019, é uma invenção de Organizações Não Governamentais patrocinadas por Leo Di Caprio.

Não há queimadas no Pantanal - o relatório do Instituto Nacional de Pesquisas que aponta que os incêndios na área do Pantanal aumentaram 210% em 2020 face ao mesmo período de 2019 é desinformação promovida por países concorrentes cujas florestas já arderam.

Não há racismo no Brasil - se o Ministério Público do Trabalho apresenta números a dar conta de que os negros enfrentam mais dificuldades na progressão da carreira e na igualdade salarial e se o Atlas da Violência de 2017 indicava que a população negra também corresponde à maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais probabilidades de serem vítimas de homicídios, tudo isso não passa de "uma ideia de quem quer destruir a diversidade do Brasil e colocar no seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre raças, sempre mascarados de 'luta por igualdade' ou 'justiça social', tudo em busca de poder", conforme disse o presidente na ONU.

Não houve vitória de Joe Biden - por mais que a justiça norte-americana indefira ações de Donald Trump a propósito da contagem dos votos e que esses votos, depois de revistos uma, duas, três vezes por cidadãos independentes da democracia mais antiga do mundo deem a vitória ao democrata, quem ganhou foi o republicano.

Não se deve confiar em urnas eletrónicas - Jair Bolsonaro, apesar de ter sido eleito cinco vezes deputado federal e uma vez Presidente da República pelo sistema brasileiro do voto eletrónico, sabe que esse sistema é fraudulento e quer voltar ao velho voto em papel (o mesmo que, afinal, se revelou uma aldrabice, segundo ele, nos Estados Unidos, mas isso não interessa nada agora).

Não foi Bolsonaro quem perdeu as eleições municipais - apesar de só Carlos Bolsonaro, de entre 76 concorrentes que usaram o epíteto "Bolsonaro" nas urnas, ter sido eleito e com menos 30% dos votos do que em 2016, e de 48 dos 59 candidatos apoiados publicamente pelo presidente terem perdido, a derrotada foi... a esquerda.

Não se deve afirmar que a terra é redonda - quem acredita nas patranhas de Galileu e de todos os cientistas desde então, incluindo o ministro da tecnologia Marcos Pontes, que é astronauta, fique sabendo que Olavo de Carvalho está a estudar o "terraplanismo", tema muito caro aos seus alunos e a uma fatia considerável dos eleitores de Bolsonaro, prometendo revelações em breve.

Não foram os Beatles que escreveram as letras dos Beatles - os incautos que acreditam nisso desconhecem a teoria olavista de que Lennon, McCartney e companhia só sabiam falar de LSD; o verdadeiro autor de Love Me Do, Yellow Submarine ou Strawberry Fields Forever foi o filósofo alemão Theodor Adorno.

Não era de direita o regime nazi - todos os historiadores, todos os museus do holocausto, incluindo aqueles em solo israelita, estão enganados e a prova que era de esquerda, após sofisticada investigação e elaborados estudos bolsonaristas, está no nome do partido de Hitler, nacional... socialista.

Desmatamento, queimadas, racismo no Brasil, vitória de Biden nos EUA, fiabilidade do voto eletrónico, derrota bolsonarista nas municipais, terra redonda, letras dos Beatles, nazismo de extrema direita? Nada disso existe.

E o coronavírus? Okay, depois de 170 mil mortos no Brasil e 1,4 milhões no mundo, concedamos que existe. Mas poucochinho: a primeira onda era uma "gripezinha", disse o presidente, e a segunda, afirmou-o esta semana, é "conversinha".

Em Peter Pan havia a Terra do Nunca e o Capitão Gancho, no Brasil há um outro capitão na "terra do não". Do "não" e dos "inhos" e inhas". A propósito, para a semana falaremos de rachadinhas.

Correspondente em São Paulo

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