A grande performance

Marina Abramovic, a rainha da "arte performática", aquele segmento artístico interdisciplinar e espontâneo em que muitas vezes o criador é parte integrante da obra, expôs no Brasil em 2014.

Viviam-se os últimos suspiros do governo de Dilma, antes de o povo ir para as ruas lutar contra a corrupção em coro com os corruptos contumazes Temer, Eduardo Cunha e Aécio - era o absurdo prelúdio do absurdo ainda maior que aí vinha, na forma de Jair Bolsonaro e seus asseclas.

De então para cá, Abramovic não voltou ao Brasil.

Por medo de ser censurada, como, pelo menos, outros 30 artistas sob Temer e, sobretudo, sob Bolsonaro, de acordo com o Observatório de Censura na Arte?

Não: ela, que já arriscou a vida em performances com fogos, facas, machados, arcos e flechas, dificilmente se amedrontaria com estes censores de trazer por casa.

O mais provável é que ela não venha ao Brasil por temer a concorrência.

Porque não há performance da artista sérvia em meio século de carreira que bata, por exemplo, a dos autores da BD (HQ, no Brasil) "Vingadores, a Cruzada das Crianças", da Marvel, no Rio de Janeiro.

Por terem escrito e desenhado uma história em que dois super-heróis do sexo masculino se beijam, Allan Heinberg, americano, e Jim Cheung, britânico, conseguiram que na noite do dia 5 de setembro de 2019, o prefeito Marcelo Crivella, sobrinho do fundador da IURD Edir Macedo, anunciasse aos cariocas em vídeo nas redes sociais a retirada do livro de uma Bienal.

E que, na tarde seguinte, fiscais da prefeitura fossem mesmo à Bienal retirar a obra - saindo de mãos a abanar porque o livro havia esgotado de manhã.

Que performance. A BD, que era só mais uma de tantas da Marvel, tornou-se, com a colaboração de Crivella e do seu exército em carne e osso, uma instalação de fazer inveja a Abramovic e outros ícones do género.

Mas há melhor. O artista Carlos Latuff expôs num corredor da Câmara dos Deputados em Brasília um cartoon em que um polícia, de arma fumegante em punho, abandona o local onde jaz morto um negro.

Revoltado, Coronel Tadeu, polícia, deputado do ex-partido de Bolsonaro e membro da chamada "bancada da bala", arrancou o quadro da parede, quebrou-o ao meio e pisou-o.

O desenho seria só mais um na profícua carreira do cartunista. Com a performance ao vivo e a cores do deputado, parceiro artístico involuntário de Latuff, foi ilustrado no tempo e no espaço reais - arte interativa em estado puro.

Aliás, se os artistas em geral estão perplexos com o futuro da cultura brasileira nas mãos deste governo, Pollyana Quintella, especialista em artes visuais, num artigo irónico no jornal Folha de S. Paulo, não deixou de notar o florescimento do segmento performático no bolsonarismo.

Além de Crivella e do seu exército fiscalizador e da fúria do Coronel Tadeu, ambos bolsonaristas laterais, houve a performance de bolsonaristas de primeiro escalão, como Damares Alves, ministra dos direitos humanos.

Ela convocou os jornalistas para uma conferência de imprensa de lançamento de uma campanha sobre violência contra as mulheres. Perante as perguntas dos jornalistas, convocados por ela, permaneceu num silêncio embaraçoso para toda a gente - era uma performance, pensada e executada pela própria, para sublinhar o silêncio a que as mulheres são submetidas. Muito bom.

Abraham Weintraub, o patético ministro da educação, já fez até um teatrinho: ao som de Singin" in the Rain, cantou, de guarda-chuva na mão, "está chovendo fake news" numa performance capaz de matar de vergonha alheia quem assistisse.

Bolsonaro, entretanto, criou o personagem "o presidente é gente como a gente". E nesse papel fotografa-se sempre de chinelos e camisa de clube de futebol, a comer um petisquinho simples na desarrumada mesa da cozinha - é a sua performance pessoal.

E, claro, há ainda o nazi tropical Roberto Alvim, ex-secretário de cultura, que se penteou à Goebbels, se mascarou de Goebbels, decorou o seu gabinete como o gabinete de Goebbels, leu um texto de Goebbels e defendeu as ideias de Goebbels mas diz que qualquer semelhança com Goebbels é mera coincidência. Uma performance foi o que foi.

É, no fundo, a esperança de muita gente: que estes tempos de Crivella, de Bolsonaro, de Damares ou de Alvim não passem, afinal, de uma magnífica e ambiciosa instalação artística.

Correspondente em São Paulo

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