O regresso da crise da Europa

Sábado passado, em Bruxelas, parecia haver mais gente na rua. Uma espécie de romaria do adeus. A partir de segunda-feira fecham cafés e restaurantes durante um mês, pelo menos, depois dos bares já estarem fechados há vários dias, o teletrabalho volta a ser a regra e não se pode convidar mais de 4 pessoas para casa. Vai ser um confinamento sem ser e as pessoas vieram-se despedir.

Pela Europa fora, o final de Outubro começa a lembrar o início de Março. Número crescente de casos, medidas semelhantes mas não coordenadas e o fecho da economia, formalmente imposto ou efeito prático das medidas escolhidas.

No início da pandemia, tivemos de esperar quatro meses por uma reunião do Conselho Europeu que mostrasse que os chefes de Estado e de governo tinham percebido a gravidade da situação e eram capazes de encontrar uma resposta comum: dinheiro. Antes disso, vimos fronteiras a serem fechadas sem aviso prévio, açambarcamento de máscaras, hospitais em colapso nuns lados e vazios noutros, notícias de catástrofes económicas em cursos e acusações generalizadas sobre quem estava ou não estava preparado, quem era ou não era solidário. Em países em pânico, pairou uma dúvida sincera sobre a utilidade da Europa.

Sete meses passados, os países e governos estão mais preparados do que estavam mas, parecem-nos, muito menos do que seria de esperar. Onde se contaria com medidas focadas, intervenções rápidas, estratégias bem pensadas, há o que parece ser improvisação, repetição de soluções que têm um brutal custo económico, pouca coordenação e nenhum sinal político que indicie que a União Europeia são 27 governos soberanos mas cooperantes e coordenados que aprendem uns com os outros.

O essencial da resposta europeia, em Julho, foi um plano para relançar a economia a partir do ano que vem: dinheiro, dado e emprestado, para os Estados Membros financiarem a transformação verde e digital das suas economias, seja lá o que cada um decida que isso é.

Há, porém, três problemas com este caminho. O plano de recuperação é um plano pós-pandemia, enquanto que a situação actual é de crise sanitária e económica em curso; a assimetria do impacto económico e da capacidade de resposta dos Estados membros agrava-se à medida que a economia fecha e a crise se prolonga; e, por último, volta a não haver um sinal de cooperação e coordenação política. Entretanto, o Parlamento Europeu e os 27 governos bulham sobre o acordo a que um dos lados chegou em Julho.

Não é preciso ser um adivinho nem um catastrofista para saber que nos próximos tempos vai voltar o medo da capacidade de resposta dos sistemas de saúde e da sobrevivência da economia. E a saturação.

As pessoas agora já sabem que a União Europeia não tem competências na área da saúde, que coordenou a futura aquisição de vacinas e que está a financiar investigação. E que há dinheiro prometido. Falta, no entanto, um sinal político forte.

Em Março, os líderes europeus não estavam preparados. Agora, antes que voltem a ficar fechados em cimeiras virtuais, os chefes de Estado e de Governo, e o Parlamento Europeu, têm de dar um sinal claro de que a Europa existe e que a resposta nacional é também europeia.

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