Na Guiné, à espera de um dia

Estávamos a meio de 2000, o pior da guerra civil tinha acontecido há um ano, agora havia paz e esperança. "O chefe dos enfermeiros do hospital do Quebo (no sudeste da Guiné Bissau), um homem magro de gestos demorados, atravessa lentamente o corredor e abre a porta de um cubículo estreito e escuro. "Isto é a farmácia. Agora não temos remédios mas, quando tivermos, é aqui que hão-de ficar"", escrevi então, na revista Grande Reportagem. Entretanto houve golpes de estado, chefes militares e políticos mortos brutalmente e várias revoltas.

Voltei há dias à Guiné, mas desta vez não fui a Quebo, nem em reportagem. Dizem-me que se tivesse ido é provável que a descrição fosse a mesma. E se houvesse remédios ali, faltariam noutros lugares. A esperança média de vida é quase igual e o lugar no índice dos países mais pobres do mundo, também.

Edmundo tem um bom trabalho no centro de Bissau e não tem idade para se lembrar do que aconteceu há muito tempo, mas quando lhe dizemos que talvez um dia as coisas hão-de melhorar, faz um ar triste e responde que "estamos há mais de quarenta anos à espera de um dia". É difícil acreditar que é desta vez que ele vai chegar.

A Europa gosta de pensar que compensa a falta de hard power, de um exército capaz de defender ou atacar, pela bondade das suas razões. Como se o bem a distinguisse

A semana passada, o presidente da Guiné, que se mantém em funções para lá do termo do seu mandato (até que aconteçam as eleições presidenciais que provavelmente perderá e, portanto, não deseja) demitiu o governo que saiu das recentes eleições legislativas e empossou outro, sem maioria nem legitimidade. A comunidade internacional condenou, recusou-se a reconhecer os nomeados e a campanha eleitoral começou. É essa, a voz da comunidade internacional, que pode eventualmente fazer a diferença.

A Europa gosta de pensar que compensa a falta de hard power, de um exército capaz de defender ou atacar, pela bondade das suas razões. Como se o bem a distinguisse.

Em África, mesmo quando Portugal e França, ou o Reino Unido, têm interesses diferentes, e até divergentes, como acontece com frequência, a voz da Europa tem a força de uma potência. Não é por causa das armas nem da História, o soft power europeu é o dinheiro e a dimensão. O maior doador mundial de ajuda e a comunidade que tem dois (em breve apenas um) membros do conselho de segurança das Nações Unidas e quatro (três) membros do G7. É desse grupo que fazemos parte.

Por causa da História e da Geografia, os Estados membros da União Europeia têm perspectivas e interesses diferentes. Mais votações por maioria em vez de unanimidade não resolverá o assunto. Pelo contrário. Agravará as divergências ou as traições. O que falta para que a Europa tenha a mesma voz é a percepção de que o interesse europeu é comum, e isso só acontecerá quando a Europa acreditar que tem um novo lugar no mundo, com os aliados de sempre, mas responsável pelo seu destino.

Volto a Bissau. Há vinte anos, a Daniela, que agora trabalha num hotel, foi dos primeiros refugiados a entrar em Portugal. "Fui sozinha, mandada pelos meus pais, e quando cheguei, apareci na televisão quase a chorar." Desta vez, tem o passaporte de lado, pronto para fugir pelo Senegal assim que volte a ser preciso.

Portugal tem, por razões históricas e pragmáticas, motivos para se interessar pelo destino da Guiné-Bissau, e uma proximidade suficiente para ter alguma influência. Temos laços de sangue, memórias, alguns portugueses lá e bastantes guineenses cá. Autonomamente, podemos e devemoscontribuir para a democracia, sem desculpar quem tem desgovernado a Guiné. Na União Europeia, podemos fazê-lo com muito mais consequência. Até que chegue o dia, se algum dia chegar.