Macron, o presidente europeu

Uma das maiores virtudes de Emmanuel Macron é que tem uma ideia para a Europa. É dos poucos líderes europeus que tem. E é uma ideia francesa. Um dos seus maiores defeitos é exactamente esse.

Macron deu, a semana passada, duas importantes entrevistas. Numa, a um jornal francês à direita, falou de imigração para dizer que a França tem preferência pelos imigrantes das suas ex-colónias e que quer proteger as fronteiras (francesas e europeias). Coberto o flanco interno direito, antes de ir à China com um comissário europeu irlandês, um ministro alemão e empresários franceses e alemães (e só franceses e alemães), deu uma entrevista à The Economist sobre a Europa, onde declarou a morte da NATO.

Macron acredita, com razão, que o processo de afastamento dos Estados Unidos começou antes de Trump e acha que vai continuar. Em vez de o lamentar ou de querer contribuir para o inverter, quer surfá-lo. Dizem os seus conselheiros que é um realista pragmático.

Com o mesmo pragmatismo realista, não mistura as críticas aos regimes chinês e russo com a vontade de negociar com ambos. Diz que não quer entregar a rede de 5G aos chineses, mas sabe que precisa de lhes poder vender roquefort (e mais umas coisas). Assim como não sugere retirar as sanções à Rússia, mas quer abraçar Putin onde e quando seja necessário.

Este realismo de Macron podia ser apenas isso: ler o mundo actual e defender que a União Europeia tem de se adaptar às circunstâncias. Tem de ser poder. E, para isso, tem de o ter. Mas há mais.

Há dois factos no processo de constituição da próxima Comissão Europeia a que se deu pouca atenção (mas depois desta entrevista seria no mínimo ingénuo continuar a fazê-lo). Um: a presidente da Comissão é alemã, mas foi uma ideia (ou pelo menos quis-se que se pensasse que foi) do presidente francês. E foi ministra da Defesa. O outro: França não tem uma vice-presidência, e até sofreu a humilhação de ver a sua comissária chumbada, mas não desistiu do mais importante, o portfólio. O comissário francês fica com o mercado interno, com o digital (Vestager fica com as multas às bigtechs estrangeiras e com um novo mandato para defender os gigantes europeus, mesmo que à custa da concorrência interna) e com a defesa (uma novidade). Ou seja, a sua voz no executivo europeu ficará com o que Macron considera serem as armas da soberania contemporânea: defesa, indústria e digital.

Se é verdade que "todos os países europeus são pequenos, só que alguns não o sabem", Macron tem o mérito de ter percebido que a grandeza da França e do seu presidente (é nisso que todos os da V República pensam) passa pela Europa e a inteligência de ter aproveitado o vazio deixado pelos britânicos, perdidos no Brexit, e pelos alemães, adormecidos pela saída que nunca mais acontece de Merkel, para liderar o bloco. O problema, porém, está exactamente aí.

França não tem as finanças (nem o pudor, por comparação) da Alemanha, nem a tradição de abertura ao comércio e ao atlântico dos britânicos. Pelo contrário. Uma Europa francesa será mais centralista, assente em poucos grandes grupos empresariais próximos do poder político, dirigida em vez de espontânea, tão distante da China como da América. É esse o problema.

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