Bielorrússsia é um problema, a Turquia é um perigo

O governo da Bielorrússia é sobretudo um problema para os bielorrussos; o governo da Turquia é um problema para os turcos e para os seus vizinhos, incluindo os europeus. Chipre usou o poder de veto para obrigar a Europa a perceber, ou a aceitar, que é mais importante reagir às ameaças de Erdogan do que aos crimes de Lukashenko. Fez bem.

Qualquer democrata tem simpatia pelo povo da Bielorrússia, submetido a um poder absoluto, cleptocrático e vingativo. E compreende que necessita de suporte.

Não podendo, nem devendo, intervir diretamente, a União Europeia pode e deve tornar a vida dos dirigentes do regime bielorrusso o mais difícil possível e, pelo contrário, ajudar quem se lhe opõe. Por uma questão de princípio, mas também de interesse próprio. Quanto mais prósperos e livremente estáveis forem os nossos vizinhos, mais seguros estaremos. Os polacos olham para a Ucrânia e percebem isso mesmo. Daí o seu empenho em defender os opositores de Lukashenko.

A Bielorrússia, no entanto, é uma ameaça aos bielorrussos, não é, ou é apenas remotamente, uma ameaça aos europeus. Pelo contrário, Erdogan persegue os opositores em casa, expande uma influência não benigna na região e ameaça a Europa com os refugiados e migrantes que acolhe e com navios e intenções belicosas nas águas da Grécia e de Chipre, cuja soberania integral não aceita. A Europa foi forçada por Chipre a reagir em conformidade.

Quinta-feira passada, Charles Michel, o belga que preside ao Conselho Europeu, percebeu que teria de começar por resolver a questão turca para desbloquear o veto cipriota à solução para a Bielorrússia. A alteração à ordem de trabalhos da reunião dos Chefes de Estado e de Governo foi o reconhecimento de que a posição de Chipre não era um capricho ou um serviço aos oligarcas russos que lavam dinheiro na primeira ilha do Mediterrâneo, mas antes o legítimo forçar da solidariedade europeia.

Chipre e Grécia, com apoio austríaco, entusiasmo francês e apesar da resistência alemã (onde vivem milhares de turcos), obrigaram os europeus a desenhar uma posição comum que é tanto uma ameaça como uma proposta. Se Erdogan puser em perigo os direitos de Chipre e da Grécia nas suas zonas económicas exclusivas, corre o risco de sanções. Se puser termo às manobras agressivas, pode obter benefícios.

A política externa europeia só pode ser uma de três coisas: nada, porque nunca há acordo; as posições das maiorias, constantemente variáveis, mas normalmente dependentes dos maiores e mais fortes; ou a criação de uma perceção comum europeia de ameaças e interesses, mesmo que com lideranças regionais variáveis conforme os casos e as geografias.

Que Chipre tenha usado o veto para promover as suas posições, é compreensível e defensável. Que haja quem queira acabar com esta proteção dos Estados, sobretudo dos mais pequenos, também se compreende. Defendê-la, é menos justo.

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