A Europa sem sonho

Angela Merkel é o carro alemão da classe média dos anos noventa. Eficaz, resistente, serve impecavelmente a função mas não faz sonhar. Para quem se entusiasma com os projectos transformadores de Macron, o presidente Júpiter, a chanceler alemã é uma desilusão. Para quem espera da política pouco mais que eficiência, e da Europa pouco mais que paz, prosperidade e utilidade, Merkel está no sítio certo. E ainda não está acabada.

Numa entrevista ao Financial Times, há poucos dias, perguntada sobre se a ideia de Ocidente ainda fazia sentido, Angela Merkel respondeu que isso era um conceito muito eurocêntrico e transatlântico e que na China o Ocidente é a região mais pobre do país. Para depois lá dizer que sim, que é uma ideia e corresponde a alguns valores. Esta visão burocrática, - amanuense, mesmo -, do conceito mais importante da política internacional desde há muito tempo é menos surpreendente do que possa parecer.

Merkel cresceu na Alemanha Democrática para onde o pai, um pastor luterano obstinado, a levou e à família com o propósito de cuidar das almas roubadas pelo comunismo. Foi provavelmente o sonho da prosperidade, mais do que o dos valores, o que a marcou.

Na mesma entrevista explica que o que importa é que a economia europeia esteja bem, seja saudável (como a alemã tem sido). Não sendo uma potência militar, a Europa tem de ser uma economia de sucesso para ter um lugar no mundo, acha. E é por isso que a sua maior preocupação é a transformação digital. Merkel acredita que se a Europa perder a revolução industrial digital não terá um lugar de destaque no mundo. Por mais política externa comum que tivesse, ou porta-aviões e armas nucleares (que, com a saída dos britânicos, só os franceses têm). Parece pouco inspirador, e é. Mas não é poucochinho. É, sim, profunda e classicamente conservador.

Em Davos, Angela Merkel falou sobre a necessidade de transformar a economia europeia ao ritmo da resposta às alterações climáticas da mesma forma com que tratou da questão dos refugiados em 2015: porque sabe que deve ser feito e porque acha que pode ser vantajoso. E, por isso, por acreditar ter os valores certos e os interesses alinhados, está disponível para pagar o preço político.

Foi, muito provavelmente, o mesmo pragmatismo que a levou a organizar uma cimeira sobre a Líbia (porque os italianos não eram capazes e os franceses tinham interesses desalinhados dos alemães) e a ir à Turquia (porque há demasiado em cima da mesa para deixar entregue a Borrel ou ao caos).

Angela Merkel não faz nem quer fazer sonhar. Quer uma Europa próspera, eficiente, rica. Só isso. Por necessidade e vazio, está a assumir protagonismo internacional, mas não será a líder do mundo livre se a América continuar a faltar. Pelo contrário, Macron sonha com a grandeza da França e fala da grandeza da Europa. Entre os dois há uma enorme coincidência no diagnóstico, e uma enorme divergência nos objectivos. Pelo caminho querem muito a mesma coisa: evitar a irrelevância europeia. Com mais ou menos sonho, acabaremos a seguir um dos dois.

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