A Europa de Macron

É frequente dizer-se em Bruxelas que a política europeia é como o futebol, onde são 11 contra 11 e no fim ganha a Alemanha. O que tem sido verdade nos últimos anos parece estar em mudança com a chegada de Emmanuel Macron. Parece.

Depois de ter sido celebrado por ter derrotado Le Pen, e dado como morto por causa dos confrontos com os gilets jaunes, atualmente Macron parece ser quem comanda a Europa. Foi ele quem impôs a humilhação a Manfred Weber e sugeriu Ursula von der Leyen para presidente da Comissão; ao aderir aos liberais, obrigou-os a mudar de nome e em troca deu-lhes o poder que nunca tinham tido (e ainda fez dos socialistas europeus - que deviam ter mais poder - meros aliados úteis); nos últimos dias, foi quem comandou a seleção do candidato europeu à presidência do FMI (com o fraquíssimo pretexto de a França ter a presidência de turno do G7, apesar de haver uma presidência de turno da UE e um presidente do Conselho).

Acontece que o grande beneficiário de tudo isto foi sempre a Alemanha, ou pelo menos também a Alemanha de Angela Merkel. Kristalina Georgieva tinha tido o apoio da chanceler para a ONU e para tudo o mais; o enfraquecimento dos socialistas europeus é concomitante com a perda de poder dos sociais-democratas alemães, o que aumenta as probabilidades de a CDU se manter no poder; e uma mente ligeiramente conspirativa pode facilmente pensar que Merkel preferiu sempre uma Ursula a Weber, que consta que terá avançado sem o acordo prévio da líder alemã. Já no caso da imposição da data de 31 de outubro para o Brexit, aí Macron terá derrotado mesmo os alemães que se têm esforçado para tentar manter os britânicos, ou garantir que eles só saem a bem.

Macron conseguiu aquilo que todos os presidentes franceses acham que o seu país merece: restaurar uma ideia de grandeza e poder da França.

Mas, agora, há duas coisas que importa perceber. Uma, o que é que a França de Macron pensa sobre a Europa. A outra, quem e com que poder se lhe opõe?

Macron tem sido razoavelmente claro quanto à sua visão. Quer, entre outras coisas, uma Europa federalizada, uma política de defesa que chegue a um exército europeu, mais integração na zona euro e ser uma alternativa ocidental ao poder americano. Macron é o mais federalista e europeísta (no sentido que os federalistas lhe costumam dar) dos líderes europeus. Mais, até, do que os alemães. Ou, pelo menos, do que os alemães podem ser. E o mais contemporâneo, na maneira de fazer política.

Quanto a quem se lhe oporá, a situação é menos clara. Há, por um lado, os impulsos nacionalistas de Orbán, Kaczyński, Salvini e companhias. Nada do que Macron quer lhes agrada, mas são má companhia para todos os outros. Por outro lado, quem tradicionalmente se oporia a estes impulsos centralistas, o Reino Unido, está de saída. Sobra, no norte da Europa, entre dinamarqueses, holandeses e escandinavos, uma frente fiscalmente conservadora, liberal no sentido tradicional e soberanista, mas com pouco peso.

Macron tem a virtude de ter coragem e ideias políticas, mas para que o processo europeu seja equilibrado falta o resto. A saída do Reino Unido é, por isso mesmo, muito pior do que parece.

Consultor em assuntos europeus

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