Um filme sobre a mãe, isto é, o mundo

E era aqui que eu queria chegar. No Cinema Ideal, ali ao lado da estátua do Camões, Lisboa, na próxima quinta-feira (22), com apresentação do autor, e na sexta (23) com discussão entre este e os espectadores, passa o documentário No Intenso Agora, do brasileiro João Moreira Salles.

Repito: e era aqui que eu queria chegar. Que mais importante há que essa coisa pessoalíssima e universal, um homem a falar sobre felicidade? E falar da subjetividade, dessa voz pessoal, comentando a objetividade factual das imagens de atualidade sobre a Grande Revolução Cultural chinesa, o Maio de 1968 e a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos? Fazem agora meio século todos esses magnos acontecimentos. Mas em No Intenso Agora eles são tratados pelo ângulo fechadíssimo de um homem a olhá-los. À maneira "eu e o mundo" (aliás, com quem o mundo está sempre). A voz é dele, única, como é a de cada um de nós; os acontecimentos são universais, de 1968, um ano millésime, como se diz de grandes vinhos.

Em 1968, João Moreira Salles mal abandonara as fraldas, tinha 6 anos. Mas permite-se entrar no grande ano porque graças aos documentos, sobretudo de filmes, nós somos contemporâneos da história, assim tenhamos olhos para a ver. No começo de No Intenso Agora, para explicar o seu método, Moreira Salles mostra breves imagens de dois documentários de gente comum. No primeiro, pessoas que ele não conhece, mas sabe serem checos em 1968. E vestidos como estão, mangas de camisa ou vestidos leves, são checos da Checoslováquia na primavera ou verão. Eles riem-se, bebem e dançam, estão felizes. Na Primavera de Praga, Checoslováquia de 1968! Um país em vésperas de ser invadido e esmagado por tanques. A vida é assim.

Da mesma época, nas segundas imagens amadoras, no passeio de uma rua brasileira, uma mãe, a criada negra e uma criança. A pequenita dá os primeiros passos, a câmara familiar capta-os, mas também à criada a sair da frente da câmara sem que ninguém lhe peça. Quando a menina avança, a criada recua, vai pôr-se ao fundo, ela é do quintal, não faz parte daquele mundo. A voz: "Nem sempre a gente sabe o que está filmando." A câmara, sem querer, mostra as relações de classe no país. Os factos são os factos, mas às vezes não os vemos, haja uma voz para nos conduzir aos factos.

João Moreira Salles traz-nos de seguida um filme amador, documentário da viagem então feita pela mãe, Elisa, pela China de Mao. E com essa justificação o documentarista - de profissão que se tivesse juramento de Hipócrates obrigá-lo-ia a cingir-se aos factos - vai mais fundo que os factos. Elisa Moreira Salles, Elisinha, como as revistas Manchete e Cruzeiro a tratavam, culta, mulher de banqueiro e embaixador, vestindo Givenchy, o da elegância discreta porque só o negro é luminoso, chegou à China numa delegação recebida pelos Guardas Vermelhos. O marido, Walter Moreira Salles, era o banqueiro que negociara a dívida brasileira com o Banco Mundial.

A China a que Elisinha chega é estridente, de vermelho e slogans revolucionários. Ela escreveria: "A viagem mais fascinante da minha vida." Os jovens dançavam em coros revolucionários. Milhares do Pequeno Livro Vermelho erguidos, dazibaos (jornais de parede) e a efígie sempre brandida de Mao. Ela foi lá para ver as estátuas milenares, os jarrões de cores inigualáveis e acabou por ver a história em marcha... O documentário volta às imagens dos jovens dançando, mas desta vez a voz de João Moreira Salles ilustra-as com as notas da mãe. Elisa não faz menção ao enredo revolucionário mas, sim, às mãos naquelas danças - "que ela chamou as mais lindas da Terra" - mãos a prestar culto à velha porcelana chinesa, da beleza e suavidade. E nós damo-nos conta de não ter visto isso antes...

Último dia de 1967, De Gaulle dirige à França a mensagem habitual. Uma estátua viva, uma vida já no Panteão e, no entanto, um fraco adivinhar: "Franceses, francesas, o que será 1968? Não vemos como possamos ser paralisado por crises..." O jornal Le Monde, poucos meses depois, a 15 de março, publica um editorial de título também cego: "A França aborrece-se." Dias depois, a Universidade de Nanterre é ocupada pelos estudantes e tudo derrapa e se empolga. O velho mundo, como de costume, é apanhado de surpresa. Os símbolos começam a pipocar como os foguetes no Novo Ano chinês. No Intenso Agora, a imagem fixa-se num professor universitário, estupefacto, a ouvir de cátedra; lá em baixo, de dedo em riste, o estudante ruivo Daniel Cohn-Bendit. Na Sorbonne, Jean-Paul Sartre vai ouvir as palavras novas e a imagem fixa-se nele, de mão em concha, na orelha, para não perder o que ele não adivinhou. O profeta agora escuta.

Polícias de quase de merecer compaixão, lançam granadas lacrimogéneas. Pelo boulevard parisiense, corre uma jovem. Não pisa o asfalto - por baixo dele há a praia -, corre direita a nós luminosa. A jovem de Maio de 68 grita, por toda a sua imagem sorridente, o instante intenso que por vezes nos sai na rifa da história. O documentarista diz "torço por que minha mãe tenha tido esse instante". Há um momento do filme em que aparece Michel Recanati, um dos jovens que viveram aquele mês que subverteu tudo, até as frases feitas: "Cuidado com os teus ouvidos, eles têm paredes", disse-se naquele maio. Dez anos depois, Recanati atirou-se para as rodas do Metro de Paris (há um grande filme sobre ele, Mourir à trente ans). No documentário, é a seguir à sua imagem que aparece mais uma vez Elisa Moreira Salles.

Primavera de Praga, Revolução Cultural, Maio de 68... João Moreira Salles estava, afinal, a falar do que melhor sabemos, de nós próprios. Vinte anos depois de maio, Elisa suicidou-se. "A felicidade é uma ideia nova", julgou ter inventado aquele maio. Se calhar inventou mesmo, mas a gente não consegue viver intensamente sempre.

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