Por favor, leiam também sobre quem não sabem

No sábado, morreu Idir, o cantor berbere, filho de pastor de cabras, filho das montanhas da Cabília, Argélia. E eu, no princípio da década de 1990, repórter, por três vezes fui à Argélia, onde campeava uma guerra civil.

Em Blida vi pais a reconhecer os filhos degolados pelos fascistas islâmicos. Os fanáticos acossavam nas ruas de Argel mulheres de cabelos ao vento. Os casa­mentos berberes, porque eram festa, e festa era pecado, precisavam de tropa a proteger os gritos ululantes das mulheres. Quem insistia em beber vinho, numa Argélia que o produzia desde os ro­manos, rasava as paredes para procurar uma garrafa de clarete de Mascara.

E eu, no fim de um almoço, estava ocioso num restaurante de Argel a cortar o doce ex­cessivo das tâmaras com goles de chá com hortelã. Foi quando a vi, uma outra empregada, não a que me servia, a passar pelo espelho do restaurante...

Mas desculpem, respeitemos a morte, volto a Idir, o berbere que, em 1975, porque o Mediterrâneo tem duas margens, emigrou para Paris, e ali morreu no sábado. Um povo antigo, que já tinha dado parcialmente à canção francesa Mouloudji (de pai berbere) e Édith Piaf (de mãe berbere), fez de Idir o seu embaixador com todos os poderes e talentos. Aliás, quando ele desembarcou já era um monumento, o autor de A Vava Inouva, a balada que era o hino de uma cultura perseguida.

Mas Idir, diria eu se não soubesse do que estava a falar, por isso corrijo, tiro a adversativa: "e" Idir cantava também em francês. Em 2010, no teatro do Châtelet, em Paris, Idir deu um espetáculo com a sua filha Thanina, também música.

Ao piano, Thanina tinha um vestido de tons vermelhos e alças estreitas, decote generoso, braços e ombros nus. E, sublinho, cabelos castanho-escuros descendo pelas costas. Ao primeiro teclar, surgiu por detrás da cena, Idir, 61 anos, o magrebino do país das montanhas, calças de ganga e camisa negra, que tocou ao de leve no ombro da filha e foi encostar-se ao piano dela.

De óculos de aros finos, voz doce, que me lembrou tanto a de Mouloudji, Idir sussurrou ao microfone Lettre À Ma Fille. Eu traduzo. Não, não traduzo o nome da canção, traduzo o que aconteceu no palco: notícias ao vivo, de um drama atualíssimo e demasiado universal. Um pai de um país islâmico escrevia à sua filha uma carta sobre cabelos. Pela liberdade, enfim.

E vou saltando pelos versos dessa carta. "Como todas as manhã, passaste frente ao espelho/ Ajustaste o véu aos teus cabelos, como convém aguentarem até à noite/ (...) O autocarro leva-te à escola, onde constróis um horizonte/ Fiquei quieto, só a pensar em ti/ (...) Eduquei-te o melhor que pude, como sempre fizeram os nossos/ Mas era pelo teu bem? Ou para fazer como os nossos?"

Tecnicamente era um simples cantor acompanhado pela pianista, mas o palco do Châtelet expunha o drama de uma multidão, e em tantos países, hoje. O perfil belo de Thanina por vezes deixava o teclado e confrontava-se com a face angustiada de seu pai. E este continuava o poema com a sua voz doce.

"Alguma vez se viu um verdadeiro sorriso nos teus lábios?/ Todas estas questões me ponho, mas nunca contigo à frente/ Tu sabes minha filha que entre nós, destas coisas não se fala". Thanina abandonou as teclas ao saber dos seus dedos e olhava o pai. E este como se tivesse arranjado coragem: "Se por uma vez tu tivesses o direito de fazer o que queres/ Se por uma vez tu fosses dançar libertando os teus cabelos..."

E a voz do pai mudou para uma urgência como quem risca sob as palavras de uma carta: "Eu quero que tenhas o direito de ter 20 anos/ Ao menos por alguns dias." Assim disse, cantou, carteou há dez anos no teatro do Châtelet, Idir, o cantor berbere, filho de pastor e pai angustiado, que morreu há três dias em Paris.

E eu volto a uma memória de quase 30 anos, que não canso de repetir em crónicas. No fim de um almoço solitário em Argel, entre tâmaras e chá com hortelã, dei conta de uma empregada que passava entre a minha mesa e o espelho grande na parede. Quando se aproximava, os olhos eram magnetizados pelo que o espe­lho devolvia dela. E, dela própria, interessavam-lhe exclusivamente os cabe­los.

Ora os abanava, soltos, ora a mão que abandonava a bandeja mer­gulhava os dedos nos seus cabelos escuros. Ela nunca parou frente ao es­pelho demorando a apreciação, sabia que eram tempos de resistência breve, mas em nenhuma passagem deixou de se olhar. Eu estava fas­cinado, nunca vira uma guerrilheira ser tão insistente e resiliente.

Daqueles dias argelinos, escrevi numa das crónicas: "Aquele gesto gracioso e repetido foi o que mais esperança me deu pela Argélia." Saberia ela que o seu gesto iria ter uma canção? Teria ela chorado este fim de semana por Idir? Oh, como preciso, ainda mais nos dias tristes, de saber dos meus.

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