O RAP e a diretora condenada ao nosso riso

Há uns anos, surpreendi-me com uma cena de Herman José. Pareceu-me comédia tipo Mister Bean ou Jerry Lewis, disparatada. Feita pelos melhores, como os citados, é um género superior - e Herman, com o menino Nelito, por exemplo, a escavacar o cenário, sabe também ir por aí. Ora, naquela noite, Herman apresentava uma distribuição de prémios televisivos, função que tornava demasiado perigoso o desvario. Daí a minha surpresa pelos pinotes e o atirar-se para o chão do humorista.

Tentei entender e entendi. Fiquei comovido. Herman chamava os holofotes, a atenção da plateia e o foco de milhares de pessoas nos sofás portugueses porque um dos premiados entrara completamente bêbado e entaramelava-se no seu ridículo como por vezes acontece aos bêbados. Não era por narcisismo, compreendi, mas por generosidade que o comediante se expunha. Este apontou para si, com risco, para proteger um colega.

O próprio de um comediante é fazer rir, não é ser generoso. Gosto muito, muito, do Herman, por o que lhe devo rindo, sorrindo e, sobretudo, pela graça de receber dele a bênção daquele tipo de inteligência que ele distribui há décadas. O que ele fez naquela noite não disse grande coisa do comediante que ele é. Mas da pessoa, sim. Em cachê, Herman não merecia, naquele episódio, nem um euro para alimentar o Bentley que, julgo, nessa altura ele conduzia. Mas foi tão bom ver alguém fazer o que ele fez!

De Ricardo Araújo Pereira gosto muito, pelo que lhe devo rindo, sorrindo e, sobretudo, pela graça de receber dele a bênção daquele tipo de inteligência que ele distribui

De Ricardo Araújo Pereira gosto muito, pelo que lhe devo rindo, sorrindo e, sobretudo, pela graça de receber dele a bênção daquele tipo de inteligência que ele distribui, não há tanto tempo como Herman mas há já uns anitos. Acresce que RAP é um bom cronista, dos melhores que se publicam em Portugal, e veio trazer humor a um género de escrita geralmente armado ao pingarelho. Também por isso gosto dele.

No domingo, estive a vê-lo no seu programa da TVI, que estreara há pouco, Gente Que Não Sabe Estar. RAP definira, numa entrevista, o que pretendia com este programa semanal: "Acho saudável que uma sociedade possa rir-se dos seus dirigentes". Nessa noite, RAP comentou longos minutos as imagens da diretora duma penitenciária, onde se passara, dias antes, o escândalo duma festa entre presos, com álcool, drogas e telemóveis que ali são proibidos.

A diretora fora prestar contas, na quarta-feira, a uma comissão do Parlamento sobre queixas apresentadas por presos, não sobre o escândalo referido. A sua pronúncia, o seu nervosismo ("o deputado Beleza, do Bloco, não é?... ah, é Pureza..."), o amadorismo nacional (ninguém sabia o que aquilo era, audiência, audição...), a politiquice (os da oposição a picarem, o presidente da comissão a presidir com verborreia simpática) levaram a diretora a espalhar-se. Dois dias depois, ela demitiu-se.

A diretora não estava bêbada como o colega de Herman, foi simplesmente pouco assertiva - qualquer vereador ou vendedor de apartamentos, desses com foto em cartazes, faria melhor. Mas a diretora não foi ridícula, foi só uma "dirigente" com as impotências próprias de quem dirige dezenas de funcionários de baixa contínua e até alguns que nunca apareceram nos últimos dois anos. Além, claro, do facto perigosamente escorregadio de ela dirigir uma prisão e esta ser portuguesa.

Fui ver os 46 minutos do depoimento prestado pela diretora na audição na Assembleia da República, disponíveis no Canal Parlamento. Não, a diretora não teria precisado da generosidade do Herman para desviar a atenção de um comportamento vergonhoso - foram 46 minutos inócuos, da sua responsabilidade, mas não só. A diretora teria merecido era que o nosso direito em nos rirmos dos "nossos dirigentes" não se exercesse com excesso de legítima defesa desse direito.

No programa de RAP, o humor das imagens e dos comentários distorcidos foram injustamente cruéis. Humor? Não nego. Humor legítimo? Sou dos que não junto as duas palavras. Acontece é que, no domingo passado, estivesse eu no Gente Que Não Sabe Estar, gostaria de ter a coragem de saltar para o palco e fazer palhaçadas para desviar as atenções. Tinha era de ser em dose dupla. Porque além de tentar salvar uma injustiçada também gostaria de salvar de um momento infeliz um humorista que admiro.

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